A Enganada

Ser mãe é ser enganada.  E que ninguém me venha com a desculpa de que nunca enganou sua mãe, porque isso não é verdade (ou, na linguagem do político safado, "é uma inverdade, vossa excelência!").

O filho que cai da moto e se quebra todo, a filha que já sabe beijar ou até já está namorando. São enganações ingênuas, brandas e que um dia acabam virando uma história engraçada, a ser lembrada por essa mãe enganada.  Na verdade são uma forma de se arriscar a testar aquilo que nossa mãe diz que é perigoso, que machuca e que até mata. 

Sim, os pais são mais enganados que as mães, talvez  por não se saber qual vai ser a sua reação.  Por exemplo, como contar ao pai que o filho comprou uma moto ou que a filha está namorando?  É sempre um suspense, afinal, o que será que ele vai fazer? Vai quebrar a moto? Vai bater no namorado da filha? É um suspense.

No caso das mães não é a imprevisibilidade da reação, pelo contrário, é exatamente o que se espera dessa mulher: uma parada cardíaca, um descabelamento, um escândalo, um desmaio, uma choradeira diluviana.  Um treco. Porque mãe vive sempre com o coração nas mãos e qualquer coisa que vá roubar-lhe a paz e o sossego em relação à sua eterna criança pode se tornar uma manifestação emocional em níveis de melodrama de novela.

No play do prédio onde moro existe uma "casinha" feita de madeira, com uma escada de um lado e um escorrega do outro e um balanço de cada lado também.  Apesar de estar bem avariada, esse brinquedo não deixa de ser convidativo a todas as crianças que passam por lá.  A casinha as atrai, assim como a formiga em direção ao doce.

Desde que Davi começou a andar ele frequenta a tal casinha, sempre sob a minha fiel e irrepreensível proteção militar.  Quando sobe a escada, lá estou eu atrás porque, vai que ele se desequilibra, cai e quebra a cabeça?  Quando desce pelo escorrega, lá estou eu prontamente atenta porque, vai que ele se vira e, ao invés de escorregar, caia de cima do escorrega e quebre a cabeça?

Assim é em praticamente todos os lugares onde eu o levo e que tenha algum brinquedo.  Em casas de festas, até que confio um pouco naqueles  instrutores-com-cara-de-tédio e dou um refresco para mim mesma.  Ainda assim, uma hora ou outra lá estou eu verificando se Davi não corre o risco de se desequilibrar, cair e quebrar a cabeça.  Vai que...

Um dos brinquedos que mais me apavora é a tal cama elástica.  Apesar de ser bem atrativa aos meus olhos, vejo nela um grande potencial de acidentes, como torção nos pés ou uma quebra de pescoço.  Já li casos cabeludos de crianças que quase ficaram paraplégicas porque caíram errado, entre as molas, ou algo assim.  Para quem já é meio neurótica, uma torçãozinha já basta.  Fico sempre aflita quando Davi entra naquilo.  Apesar de ainda não saber pular direito, ele tenta fazer alguma coisa mas geralmente se rende e fica deitado, enquanto as demais crianças pulam e fazem com que ele fique quicando na lona da cama.  É claro que geralmente também ele fica junto com crianças de idade ou tamanho aproximados, pois os instrutores-com-cara-de-tédio têm algum bom senso de não deixarem os graúdos se misturarem, pois aí os acidentes seriam certos.

Mas voltando à tal casinha, eis que um dia vejo Davi descendo pelo escorrega, não sentado, mas deitado, de cabeça para baixo, como se estivesse dando um mergulho. Pânico, suor, taquicardia, gritos histéricos, o horror.  Até que ouço as seguintes palavras, ditas pelo pai desse menino: Luciana, ele já faz isso há um tempão...

..........

Numa festa no play lá de casa, além da cama-elástica-ameaça-fantasma havia um escorrega e-n-o-r-m-e, daqueles infláveis, que tinha uma altura aproximada de mais de 3 metros.  As crianças subiam por uma escadinha bem estreita e de lá de cima se atiravam em direção ao infinito e além, escorregando feito sacos de batatas no cais do porto.  Claro, sempre observadas por um instrutor, dessa vez com uma cara de tédio mais simpática.  Sendo a festa no prédio, Davi já havia descido antes, com o pai, e eu acabei chegando um pouco depois, e assim que chego, a primeira coisa que faço é saber onde ele está, e ele estava na tal cama elástica, só que sozinho.  Menos mal.

Até que, em determinado momento, vejo o mequetrefe lá em cima, no topo do escorrega inflável,  ladeado por duas meninas maiores, prestes a se jogar  para o infinito e além.  Pergunto como-é-que-ele-foi-parar-ali-meu-deus-do-céu! Sou informada  de que as "amiguinhas" o ajudaram a subir as escadas, uma na frente, puxando, e outra atrás, empurrando.  Pânico, suor, taquicardia, gritos histéricos, o horror.  E de repente, vruuuuuuuuuupt! Lá vem ele escorregando, tal qual um saco de batatas no cais do porto.  Cai, se levanta, e faz uma bela cara de "gostei e quero mais".  Em choque, ouço as seguintes palavras, ditas pelo pai daquela criança: Luciana, ele já tinha escorregado aí antes de você chegar...

..........

Na mesma festa, me chega um prato de salgados à mesa, com coxinhas de galinha  espetadas num palito assassino.  A fim de evitar que o menino coloque a coxinha inteira na boca e fique com o palito assassino atravessado na goela, o que poderia levá-lo à óbito, no mínimo, e antes mesmo de o fazer, ele vem delicadamente, retira o palito assassino da coxinha, o coloca delicadamente à beira do pratinho e se vai, comendo a coxinha, como se não houvesse amanhã.  Dessa vez, nem me importei se o pai havia dito que ele já faz isso ou não.

..........

Esses são alguns exemplos do quanto tenho sido enganada por aquele moleque, sendo que muitas dessas  traquinagens já são de pleno conhecimento do pai, e aí desconfio que os dois estejam de conluio, ou para me poupar, ou para me matar de vez.

E aí eu não quero nem imaginar o dia em que eu descobrir que ele chegou em casa todo quebrado porque caiu da moto...dele!