Feia - Livro



Entreguei a minha fotografia tirada na escola, para a minha mãe.  Ela olhava da fotografia para mim.  De mim para a fotografia.  Então disse: "Meu Deus, como ela pode ser tão feia. Feia. Feia."


Achou muito pesado?  Isso foi pouco diante do que Constance "Claire" Briscoe ouviu de sua mãe na sua infância.

Esse é o tipo de livro que você começa a ler e não para enquanto não acaba. Fui capturada pela capa, claro, e assim que li o prefácio, não tive como não levá-lo e quero indicá-lo como leitura.  Não é uma leitura agradável, fácil, no sentido de ser palatável, porque a história verdadeira de Constance "Claire" Briscoe é crua demais, mas nem por isso não recomendável, pelo contrário.

Não sei exatamente o que levava sua mãe a agir como agia, da forma mais sádica possível, ao violentar física, verbal e moralmente sua filha, porque nada justifica suas atitudes, que são inadequadas até para um animal, quiçá para uma criança, filha ou não, o que só prova que nem todas as mulheres nasceram para a maternidade.

Porém, ao contrário do que se pensa, Constance Briscoe não se vitimou e se autopiedou.  Ela "cresceu e apareceu", tornou-se juíza e uma das primeiras mulheres negras a presidir a sessão de um tribunal no Reino Unido.

Encontrei também uma entrevista que a autora deu à Istoé, algum tempo passado, abaixo.  Interessante é que ela define sua mãe também, como "tóxica", assunto abordado neste livro.



Constance Briscoe

"Acredito que sou ótima mãe"
Juíza inglesa conta em entrevista à ISTOÉ os motivos que a levaram a escrever o livro em que narra as agressões físicas e psicológicas que sofreu da própria mãe
 Suzane G. Frutuoso

Confira abaixo a entrevista com a inglesa Constance Briscoe, de 52 anos, autora de "Feia - a história real de uma infância sem amor” (Ed. Bertrand). Após o lançamento do livro, a mãe da escritora, Carmen, tentou processá-la por causa da obra. Perdeu. 

Istoé - Por que a senhora resolveu falar abertamente  sobre os abusos sofridos na sua infância?
Constance Briscoe - Sempre pensei em escrever sobre minha história.  A primeira vez que fiz isso foi quando meu filho mais velho nasceu, em 1987.   Mas nunca passei do primeiro capítulo. Na época, resolvi apenas tocar a vida. Depois, escrevi porque gostaria que meus filhos conhecessem mais sobre minha luta e que eu não tinha vergonha do meu passado. Ao mesmo tempo, não desejava criá-los sob o estigma de uma mãe que sofreu abusos. Eles nunca poderão dizer que falharam na vida porque a mãe deles teve uma vida difícil.

Istoé - Quantos anos a senhora ficou sem falar com sua mãe?
Constance -Quando ingressei na universidade foi a última vez que falei com minha mãe, em 1979. Sem contar nosso encontro no tribunal, a vi em três ocasiões. Uma delas era o funeral do meu pai. Em nenhuma das vezes falei com ela.

Istoé - Qual foi o maior trauma para a senhora?
Constance - Eu não diria que ainda carrego traumas. Acredito que minha mãe é algo tão distante do meu passado que dificilmente me lembro do impacto que ela causou na minha vida. Mas minha maior dor era nunca ter vivido num lar decente. E saber que eu poderia ser uma péssima mãe no futuro como ela foi. Na verdade, não acredito que possa existir alguém pior do que minha mãe.


Istoé - A senhora se submeteu a algumas cirurgias plásticas. Por quê?
Constance - Tive algumas dificuldades para aceitar minha aparência, provavelmente por causa dos  problemas com minha mãe. Eu mudei o nariz, a boca, os olhos e os pés.


Istoé - A senhora definiria sua mãe como tóxica?
Constance -Se isso significa ser incapaz de educar os filhos e fazer do lar um ambiente destrutivo, transformando a infância num período de medo, com certeza minha mãe é tóxica.


Istoé - Acredita que cortar relações com pais abusivos é a melhor solução?
Constance - Uma das razões pelas quais me tornei bem-sucedida é justamente ter saído daquele ambiente ruim bem cedo. Alguns de meus irmãos e irmãs, que permaneceram na casa da minha família, não se realizaram como poderiam. Há muitos casos de crianças que quando adultos venceram na vida porque foram retiradas de ambientes negativos o quanto antes. É um erro acreditar que o fato de uma mulher dar a luz faz dela naturalmente uma boa mãe.


Istoé - Como a senhora se sentiu quando soube que sua mãe estava a processando por causa do livro?
Constance -Assim que minha mãe descobriu que eu publicaria o livro sobre minha infância, ela tentou me impedir. Foi aos jornais dizendo que eu era uma mentirosa e que estava sendo vítima de uma maldade. Disse também que meu padrasto nunca havia encostado um dedo em mim, o que era mentira. Mas fiquei mesmo decepcionada foi com meus irmãos, que confirmaram o que minha mãe dizia. Isso porque uma das coisas que descobri, durante o julgamento, foi que ela abusou de outros filhos depois de mim. Arquivos do serviço social de Londres provam que minha mãe tentou colocar uma das minhas irmãs em um canil! Alegou que a menina era um cão! Como não conseguiu, botou minha irmã para fora de casa. No julgamento, ela negou. Mas os arquivos comprovaram.
 
Istoé - O que seus filhos dizem sobre sua história?

Constance  - Eles compreendem. Agora, eles sabem os detalhes e têm um enorme orgulho e respeito por mim. A mãe deles, que veio do nada, começou do zero e venceu, é uma inspiração.

Istoé  - Como é para a senhora ser mãe hoje?
Constance  - Acredito que sou ótima mãe. Nunca bati nos meus filhos. Eles cresceram com espaço e apoio para se tornarem as pessoas que desejam ser.


Istoé  - Por que escolheu ser juíza?
Constance  - Porque quero julgar as pessoas de maneira justa, sem preconceito.


Livro: Feia
Autora: Constance Briscoe
Editora: Bertrand Brasil
361 páginas