Fibrose e um Coração nas Mãos

"Mamãe, Davi está apresentando dificuldades em fazer xixi."

Esta foi a mensagem mais recente que a professora do Davi enviou pela agenda escolar e algo inédito, já que nunca recebi esse tipo de informação dada pela escola.  Não entrei em pânico, muito menos me espantei, porque isso não é informação nova para mim, porém, fiquei, sim, muito, muito aborrecida, chateada, triste, me sentindo um tanto fracassada e... fraca. Mas nada se compara quando o teu próprio filho chega e diz:

- Mamãe, meu xixi está apertado e o Dr. Martinelli tem que consertar meu piu-piu.

Tem como não chorar?

O canal da uretra do Davi voltou a ficar estreito.  Depois da última cirurgia, que era para abrir um pouquinho a saída do xixi, achamos que, enfim, esse tipo de problema estaria resolvido.  Porém, um comentário ligeiro - e não me lembro se foi o Dr. Clodualdo ou o Dr. Martinelli quem fez - acendeu uma luzinha bem pequena e amarela em mim, algo como "tomara que não haja fibrose".

Seu primeiro xixi pós-operatório foi "lindo", como vimos falando para ele a fim de que se distraia de algum incômodo, mas com o tempo tudo cicatriza.  Ver o filho fazer xixi normalmente, com aquele jato forte e que faz barulho é motivo de alegria e satisfação para nós.  Porém, com o tempo, começamos a perceber que 2 coisas voltaram: a força que ele faz ao urinar e a ausência do barulho do xixi.  E aí, pensamos: temos que voltar às dilatações novamente-e-mais-uma-vez-de-novo.

A fibrose é um mecanismo benéfico ao nosso organismo, nada mais do que a reconstituição de alguma parte afetada por algum tipo de interferência, como uma cirurgia por exemplo. É a famosa cicatrização.  No caso do Davi, porém, essa fibrose tem se tornado uma pedra no sapatinho dele, já que ela faz com que a ponta do canal da uretra volte a se estreitar, afinando o jato do xixi e fazendo com que Davi tenha que voltar às dilatações ou, talvez, a uma nova cirurgia.  E a toda essa situação de desgaste em que nos encontramos.


Algumas tentativas de se fazer dilatação em casa não deram certo.  É muito estressante para nós, os pais, e principalmente, claro, para o Davi.  Não faço a menor ideia do que seja colocar uma sonda no canal da uretra, mesmo que se utilizando de anestésico tópico, mas imagino que seja muito incômodo e até doloroso. 

Um desânimo bate todas as vezes em que penso que tenho que internar o Davi para as dilatações.  Dura um dia inteiro esse processo.  Ele está crescendo e já entende o que passa ao seu redor, sente fome e pede água e algo para comer.  Isso angustia, porque deixá-lo com fome, por exemplo, me corta o coração, até porque, num lugar cheio de crianças, o que não faltam são biscoitos, sucos e outras coisas que elas comem enquanto aguardam sua vez para serem atendidas.

Mas se há possibilidade de se fazer reparos, que sejam feitos.  E considerando que sua alta médica deverá ocorrer lá pelos 13, 14 ou 15 anos (é... só na adolescência, quando estiver produzindo espermatozóides), então, teremos tempo e oportunidade suficientes para nos desgastarmos, renovarmos as forças e usá-las novamente e novamente e novamente.

E aí no dia em que recebi a tal notificação da escola, ocorreu o seguinte diálogo:

- Meu filho, você está sentindo dor para fazer xixi?"

- Ah, não tem problema, mamãe, não está doendo, o Dr. Martinelli vai consertar.

Tem horas que eu acho que ele é bem mais forte do que eu...