Na Ponta da Agulha


Nosso país é um dos campeões em vacinação no mundo. É orgulho nacional a erradicação da poliomielite, por exemplo, e o Calendário Básico de Vacinação, que contém 12 tipos de vacinas  - e a cada ano inclui mais uma -, deve, digo, D-E-V-E ser documento oficial de acompanhamento do desenvolvimento infantil.  Mas nem sempre foi assim.

No início do século passado, a população do Rio de Janeiro se revoltou contra a campanha obrigatória de vacinação contra a varíola, no que foi conhecido como Revolta da Vacina.   Naquela época, o saneamento básico era muito precário e as pessoas, principalmente as da classe mais pobre, sofriam com doenças como febre amarela, peste bubônica e a tal da varíola. Não somente por conta do desconhecimento de seus efeitos, mas também pela maneira autoritária e violenta como eram tratadas, as pessoas se recusavam a se submeter à vacinação.  Mas isso é passado e hoje casos como peste bubônica, por exemplo, são raríssimos.

Nossas crianças são supervacinadas.  Além do Calendário Básico, há também as vacinas que são indicadas em consultórios particulares, que são pagas. Ou seja, até chegar aos 10 anos, por exemplo, é provável que a criança tenha tomado uns 14 tipos de vacinas, que servem para imunização e/ou prevenção.

E outro dia alguém estava falando a respeito da catapora e do sarampo.  Eu, por exemplo, não me lembro de jeito nenhum de ter sofrido com essas doenças, típicas da infância de muita gente, mas que hoje são raras de se manifestar. Me lembro do filho de uma amiga, que aos 3 anos teve catapóia (era a pronúncia dele). O bichinho ficou febril e cheio de pintinhas vermelhas, e sua mãe lhe dava banho de permanganato 2 vezes ao dia. Creio que esse sofrimento tenha durado em torno de 1 semana e meia, entre o pico da doença e a cicatrização das pintinhas. Hoje esse menino já é homem feito e tanto a catapóia quanto o permanganato são coisas de antigamente...

Sempre ouvi falar das tais "doenças de infância" mas não sei se havia uma taxa muito alta de mortalidade por conta delas.  Claro que não estou falando de poliomielite ou de meningite, ou mesmo de bócio ou doença de chagas, mas de sarampo, rubéola,  coqueluche, cachumba e a própria catapora.  Era quase certo esperar que quando a criança atingisse determinada idade ela fosse atacada por uma dessas doencinhas. Era uma espécie de "calendário", só que de doenças e não de vacinas.

Hoje a maioria das crianças não sofre mais  com essas coisas.  As doenças desta geração estão muito mais ligadas ao trato respiratório, e eu imagino que seja um pouco por conta da falta de um quintal ou de uma rua sem carros e outros perigos, onde elas pudessem correr e brincar.  Aquelas doenças geralmente eram tratadas dentro de casa, muitas com mezinhas passadas de mãe para filha, de avó para mãe. E as crianças sobreviviam. E tinham uma história das doencinhas para contar.  Hoje, o que mais se aproxima dessa lembrança talvez seja apenas da picada das agulhas, e o que ficar na memória cairá no buraco do esquecimento 5 ou 10 minutos depois,  muitas vezes por conta de uma balinha de morango, um pirulito ou mesmo um brinquedo.

No próximo sábado, dia 18,  haverá mais uma campanha de vacinação. Dessa vez serão oferecidas vacinas contra o sarampo e a poliomielite e nesse dia os postos ficarão abertos das 9 até às 17 horas. Além dessas, é importante colocar em dia o Calendário de Vacinação da criança, caso você tenha se esquecido ou ficado impossibilitada de levá-la no período marcado. É claro que haverá muito choro e ranger de dentes, porém, será pouco provável que você tenha que sair em busca de pastilhas de permanganato, muito menos de ir atrás de alguma receitinha caseira da sua bisavó. Bem provável também que nunca mais iremos ouvir de uma criança que um dia ela teve catapóia.




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