UTI 6 Estrelas, Ultra Top, Mega Hipe, Super Fashion



E a sigla UTI assusta um pouco, não? Ser enviado para uma UTI significa que o papo é reto, e sério. E quando você é informada de que o filho que você acabou de colocar no mundo vai para lá num vôo direto, sem ao menos fazer uma conexão no quarto, o sinal vermelho acende e apita no máximo volume.

UTI é UTI.  Não importa se é de 6, 4, ou 2 estrelas.  Ou nenhuma. Ainda é UTI.  Então, se é na Perinatal ou simplesmente no Miguel Couto, a situação é praticamente a mesma – crianças com algum quadro clínico que requer um cuidado muito especial.  Claro, em se tratando da UTI em questão, não sou louca nem doida nem varrida de reclamar, pois tomo como uma grande bênção de Deus o fato do Davi ter sido tratado lá, pois ela é considerada a melhor na América Latina. Ultra Top, Mega Hipe, Super Fashion...

Talvez por só ter conhecido, até agora, duas UTI’s – a da Perinatal e a da Pronto Baby, – não tenho condições de indicar pontos positivos e negativos, ou seja, se uma é mais equipada do que a outra, se é mais bonita, mais cheia, mais fashion, se é mais ou se é menos Ultra Top, Mega Hipe, Super Fashion . Há, sim, uma diferença entre uma e outra: a UTI Neonatal, como diz o próprio nome, é para recém-nascidos – não sei até que idade, mas ainda bebês.  A UTI infantil já é para bebês e crianças de até uns 12 anos.

Uma UTI não para, pois não deixa de ser um setor de emergência do hospital.  Dia e noite, médicos, enfermeiras e pais fazem aquele planeta girar.  Além disso,  o local possui aquelas máquinas que monitoram a respiração dos internados, emitindo sum continuado“bi-bi-bi, biiiiiiiii, bi-bi-bi”, que embala o sono dos pimpolhos e irrita os acompanhantes.

Médicos Neonatologistas são um capítulo à parte.  O que eles têm para dizer, eles dizem sem dó nem piedade, tipo “"Se-não-levarmos-seu-filho-agora-ele-poderá-ter-uma-lesão cerebral-por-conta-do-baixo-nível-de-glicose". Simples assim.  Não acho que fazem isso de maldade, creio que a rotina dura da profissão - lidar com crianças portadoras das mais variadas doenças – congênitas ou não – em nível de UTI, acaba deixando essa gente meio insensível. E doida.  Sim, porque médico neonatologista não bate muito bem e um dia eu vou provar isso a você que estiver lendo essa bagaça aqui. Contudo, são profissionais altamente competentes, pois não é qualquer dotôzinho que encara uma pedreira daquela, não.

A UTI em questão é dividida em duas partes: a intensiva e a semi-intensiva. Na parte intensiva, os bebês ficam em encubadouras; na semi-intensiva já ficam nos bercinhos, porém, sempre com aquele adorável monitor que emite o indefectível “bi-bi-bi, biiiiiiiii, bi-bi-bi”.  E quando há alguma alteração no sensor, o monitor enlouquece de vez e faz um “BI-BI-BI-BI-BI" mais alto ainda, algo próximo a uma bomba relógio ou similar.  Às vezes é porque o contato entre o sensor e o pezinho do paciente caiu ou saiu do lugar, às vezes é por nada mesmo. Agora, multiplique tais monitores por... hum... 20, durante 24 horas ininterruptas. Pau de dá em doido perde.

Davi ficou na UTI intensiva da tarde do dia 22 até o fim do dia 23, quando foi liberado do soro, pois o nível da glicose havia sido normalizado. Durante esse pequeno período ficamos só eu, ele e o pai, durante todo o dia, até às 21 horas, pois o acesso é proibido às demais pessoas, com exceção a um dia de visitas para os avós.  Esses foram os primeiros momentos em que começamos a nos conhecer. Foi onde  tentei amamentar, trocar as primeiras roupas e fraldas e a aprender a técnica de banho com as enfermeiras.

O esquema numa UTI é de muita, muita, mas muita higienização de mãos e  também de a-do, a-ado, cada-um-no-seu-quadrado. Nada de ficar tocando nos outros bebês, só no seu.  No máximo um “oi”, um gracinha ou um elogio de longe e olhe lá. Como eu não sabia disso, levei uma chamada da enfermeira quando fui fazer um cafuné na Maria Eduarda, que também dividia o cômodo com o Davi naquele primeiro momento.
Na tarde do dia 23, Davi estava apto para ter “alta” e foi transferido para a parte semi-intensiva.

Embora tenha sido um momento um pouquinho difícil, a temporada na UTI não foi lá tão dramática assim, não. Se eu considerar que os  novos vizinhos do Davi, haviam chegado há bem mais tempo, então eu posso concluir que apenas resolvemos passar o Natal no hospital.

Na UTI semi-intensiva, havia duas crianças perto do Davi: o Breno e a Vitória, ambos prematuros. Obviamente que o nome dizia tudo sobre a menina e sua heróica trajetória de vida. Não conheci direito a história do Breno (não li a plaquinha dele), mas a Vitória havia nascido no dia 14 de setembro, com 550g. Ou seja, ela estava internada há 3 meses! Na véspera da alta do Davi, havia uma grande expectativa de Vitória ir para casa, pois já havia alcançado os 2 kg e um pouco mais.  Creio que ela tenha saído de lá na semana seguinte, para brindar o Ano Novo com os pais.

Agora, é engraçada essa história de maternidade chique: quando se está numa mesma condição a diferença entre pobre ou rico, preto ou branco é quase nula. O que diferencia é a situação da criança, nada mais. Percebi que, assim como eu, a família da Vitória era de pessoas simples, sem muitas posses. Já a do Breno, caso da grande maioria, parecia pertencer a um nível sócio-econômico mais elevado, mais.... chique.

Pois é. UTI é UTI.  Não importa se é de 6, 4, ou 2 estrelas.  Ou nenhuma. Ainda é UTI.  Mesmo que seja na Perinatal Ultra Top, Mega Hipe, Super Fashion ou simplesmente no Miguel Couto.