Jabaculê

É tão fácil achar uma boa pediatra quanto ganhar na mega sena (alguém vai me pedir  uma definição de "boa pediatra"?).  E eu acho que essa pediatra é muito boa, pelo menos até agora.  Talvez, no início, sa gente ache que ela seja um pouco exagerada, mas depois que me acostumei não sei se  eu iria me satisfazer com o que eu acho ser uma consulta-padrão: medir, pesar e prescrever uma vitamina.  Pelo menos é essa a minha impressão baseada nas primeiras consultas em que levei o Davi.


Quando meu plano de saúde foi trocado, a primeira coisa que fiz foi marcar uma consulta com a atual pediatra, que havia sido indicada  por alguém que indicou para a minha amiga mãe-piloto, que me indicou, o que já é um bom sinal. Ou seja, a fama já vinha de longe.

Na consulta, que durou praticamente 1 hora e meia, entre as apresentações de praxe, ela analisou uma por uma TODAS as minhas ultrassonografias, o que já chamou a minha atenção.

Ela virou o Davi de trás para frente, de cima para baixo, da esquerda para a direita, enfim, se houvesse um macroscópio, ela iria utilizar, e quando ela pediu uma ultrassonografia “transfontanela”, ou seja, uma ultra da moleira do Davi, ouvi um “plim” e pensei “opa, é essa!”.  Não sei se isso é procedimento normal, porém, eu estava baseada em 3 consultas pediátricas em que esse exame não havia sido cogitado e, em se tratando de moleira, achei interessante a preocupação. Ela não somente pediu o exame, como indicou qual médico deveria realizá-lo.

Além disso, após ler todo o histórico do Davi, principalmente a cardiopatia, ela imediatamente fez um encaminhamento para o Hospital Municipal Jesus – aquele dos porquinhos na calçada - solicitando inclusão no programa de Imunológicos Especiais. 

Relatei também o caso “autismo” e ela, apesar de não chegar a me confortar, também não tratou o caso como se fosse o fim do mundo, apesar do tamanho que estava a minha cabeça desde aquela tal consulta. Fez um encaminhamento para a Drª Viviane Lanzelotte – outra fera em oftalmologia, a fim de que o tal “olhar perdido” fosse avaliado. Da mesma forma, encaminhou o Davi para as mãos de pluma do Dr. Martinelli e para a Drª Fátima, a cardiopediatra.

Ou seja, quando ela pede para fazer algum exame ou ir a algum especialista, ela já tem o lugar e a pessoa para indicar, o que facilita muito pois, no final das contas, todo mundo conhece todo mundo e se comunica entre si e acaba trocando impressões sobre o mesmo paciente.

Voltando ao final do último capítulo/tópico, durante mais de 1 mês – período da espera pela consulta a oftalmologista – fiquei algumas noites sem dormir direito e meio que olhando de rabo de olho para o Davi.  

Minha cabeça passou a ser ocupada com o seguinte questionamento: “Será que ele é autista?” “Será que ele tem autismo?” “Será que ele TAMBÉM tem autismo?” “Será que ele é autista?” “Será que ele tem autismo?” “Será que ele TAMBÉM tem autismo?” “Será que ele é autista?” “Será que ele tem autismo?” “Será que ele TAMBÉM tem autismo?”. Guerra no Iraque? Queda do dólar? Último capítulo de novela? CPI's? Nada.  Eu só pensava... "naquilo"!

Foi meio torturante (meio???). O pai, lá na brisa dele (ou talvez tentando não expressar uma possível angústia), dizia: “meu filho não tem autismo, você vai ver!” Mas claro que essas palavras não entravam muito na minha cabeça, que estava totalmente tomada pelo pensamento:

“Será que ele é autista?” “Será que ele tem autismo?” “Será que ele TAMBÉM tem autismo?” “Será que ele é autista?” “Será que ele tem autismo?” “Será que ele TAMBÉM tem autismo?” “Será que ele é autista?” “Será que ele tem autismo?” “Será que ele TAMBÉM tem autismo?”, porque a minha preocupação não era Guerra no Iraque, nem a queda do dólar, muito menos o último capítulo de novela ou como iria terminar alguma CPI. Nada.  Eu só pensava... "naquilo"!

Até que o tão esperado dia chegou. Coração na mão, parecia que aqueles minutos dos exames e estímulos de praxe foram horas e horas. Ao final, Drª Viviane solicitou que retornássemos quando ele completasse 6 meses, pois tudo estava normal, dentro dos padrões. Ela explicou que até mais ou menos uns 6 meses, os músculos oculares ainda  não estão totalmente fortes - o que explica aquele olhar esquisitão dos bebês.  Além disso,  a visão da criança começa a desanuviar, MESMO, a partir dos 6 meses e se fixa totalmente aos 4 anos. Ou seja, se seu bebezinho ainda é bem pequeno e ri quando você faz uma gracinha, não  pense que é porque ele te VÊ nitidamente, mas é o reflexo da visão ainda embaçada que ele tem e que vai clareando na medida em que ele cresce (óbvio!).

Apesar do quadro "normal" da visão do Davi, ainda assim – ai, neurose – eu  diminuí só um pouquinho o olhar de rabo de olho sobre ele, e quando ele meio que saía de órbita (sabe quando você se distrai e fica com um....“olhar perdido”?), eu o sacudia logo para ele voltar à Terra. Pobre menino!

Na consulta dos 6 meses, Drª Viviane deu completa segurança de que Davi não era autista. Mas, como toda a mente neurótica, perguntei:

- Posso me desfazer daquela "idéia", Drª?
- Claro que sim, não há problema algum.Só retorne quando ele completar 1 ano e meio, para revisão. Só isso.
- Hum....


Ouvi dizer, ou li, sei lá, que já existem algumas pesquisas que identificam o autismo a partir dos dois  meses, mesmo assim, ainda estão em fase de experimento.  A idade mais apropriada para a identificação é a partir de 2 anos e meio.  Ou seja, ainda há algum tempo, mesmo eu crendo em Deus que não há de ser nada de mais.

Como já falei anteriormente, não estou recebendo nenhum *jabá ou, como diria o saudoso Tim Maia, *jabaculê para citar os médicos que citei. Não ganho remédios nem consultas, muito menos uma “taxa de sucesso” - para usar um termo mais atual - para falar a respeito deles aqui.  Porém,  tenho realmente que reconhecer que são pessoas de alto nível profissional e de profunda sensibilidade humana e que me passam muita segurança naquilo que fazem.

Não sei se todas as pessoas que já foram atendidas por eles têm a mesma opinião que a minha - até porque acho que ninguém consegue agradar a todos - ou seja, pode ser que para outra mãe ou pai eles não sejam lá essa coca-cola toda e talvez, quem sabe, um dia, eu mesma vá procurar outros profissionais.  Mas por enquanto, eu fico tranquila em saber que o Davi está em mãos altamente profissionais e que entendem as minhas neuroses.






*Jabaculê ou jabá: dinheiro ganho/pago para fazer uma propaganda. Diz-se do artista que PAGA a uma rádio para que ela toque sua música de forma sistemática.