* A Lei (da Gravidade) é dura, porém é a Lei!


Está aberta oficialmente a temporada de quedas no chão! E também de colocação de dedos nas tomadas e nas gavetas.  E de prender esses mesmos dedinhos em algumas outras gavetas ou portas. E também de tirar fio das quinas dos móveis.   E também de colocar tudo, absolutamente T-U-D-O na boca - tudo o que não presta e que não pode, que fique claro. E de se ouvir, o tempo todo pela casa, as frases: Não pode ou Saia Daí. Não que isso esteja acontecendo há pouco tempo, mas tem se intensificado com o passar dos meses.

Está aberta, também, a temporada de "decoração preventiva".  Gavetas lacradas, tomadas tapadas, bibelôs, porta-retratos e outros utensílios bem acima do alcance daquelas mãozinhas nervosas.  Nesta semana, houve a tão aguardada instalação da rede de proteção naquela varanda assassina. Em breve, a grade/portãozinho para bloquear o acesso à cozinha  e à gaveta-da-pia, cheia  facas e outros objetos de desejo e de trabalho de muitos serial killers.

Davi tem uma característica que é, ao mesmo tempo, boa e preocupante: ele não manifesta dor com facilidade.  A menos que seja alguma coisa beeeeeeeem dolorosa e dolorida (como a pós cirurgia do primeiro tempo da hipospadia), ele não reclama de dor. O lado bom é que parece que ele é resistente; o preocupante, porque eu acabo "chegando tarde" na situação, descobrindo um machucadinho ou uma pereba no dia seguinte ou mais depois. Aí, eu fico arrasada, me sentindo uma incompetência em forma de mãe...(pausa dramática).

Mesmo assim, não sou do tipo que vive se desesperando com qualquer arranhãozinho nele, não, mas se ainda existe uma coisa que me preocupa é quando ele bate com a cabeça. Eu ainda não sei lidar bem com essa situação e sempre acho que é sério, por mais leve que seja a pancadinha - talvez seja a mistura do barulho que a pancada faz com o barulho que ELE faz!  Mas dizem que criança que não tem nenhuma marca de ferimentos não tem infância e eu acredito nessa máxima do cancioneiro materno-popular.

Me lembro dos moleques da época em que eu era uma doce menininha, todos, ou quase todos tinham vários machucados - cicatrizados ou não - espalhados pelo corpo, principalmente nas canelas.  Aqueles meninos viviam soltos pelas ruas dos subúbrios em que morei, soltando pipas, trepando em árvores ou fabricando os próprios brinquedos (visto que nem todos tinham condições de comprar um).  E aí, um despencava da árvore e quebrava um braço, ou um pé, ou um dedo (ou os três); outro vinha com as mãos lanhadas de tanto passar cerol proibido nas linhas das pipas; outro, com um dedo semi-decepado por uma lata velha que estava se transformando em carrinho. E aí, antes de levá-los para o hospital a fim de tomarem a terrível antitetânica, muitas mães tascavam açúcar ou café nos seus ferimentos- o que enlouquecia os médicos - mas não sem antes darem uns bons tabefes nas orelhas dos monstrinhos. Algum tempo depois - anos, até-, as cicatrizes se tornavam orgulho de uma infância vivida a todo o vapor, e sempre carregavam uma boa história para contar.

Hoje em dia, muitas mães (tipo, eu, por exemplo) ficam meio sem saber o que fazer numa hora dessas, pois seus filhos, bastante vacinados, não ficam soltos na rua trepando em árvores ou soltando pipas e sim, dentro de casa, com a cara enfiada no computador, envolvidos com algum jogo eletrônico (e caro) ou em alguma rede social. E fico imaginando se Davi estará fadado a essa infância meio artificial imposta pela modernidade e pela violência urbana. Como muitas mães, não quero que meu filho se machuque, que apareça sangrando com um corte nas mãos ou na testa, ou que fique se esborrachando pela casa.  Mas confesso que  uma possível infância sedentária me dá mais arrepios do que ter que passar por uma fase da vida tendo que levá-lo ao pronto socorro para remendar o joelho ou o supercílio (sem colocar açúcar ou café nos ferimentos, afinal, eu sou muderna!).


Nesse momento, tenho, sim, vontade de, pelo menos, colocar um capacete medieval no Davi  (o barulho da batida da cabeça  talvez fique um pouco diferente). Também acho que muitas mães, (tipo eu, por exemplo) em algum momento, se pudessem, colocariam uma armadura inteira nos seus filhos. Acho que é coisa de mãe hum...muderna. Porém, se elas - as crianças - não se quebrarem nem um pouquinho, qual a história que elas - as crianças - e nós - as mães - teremos para contar no futuro, se não haverá, sequer, uma cicatriz para mostrarmos, com orgulho, algum naco de uma infância vivida a todo o vapor?


* (Do latim Dura Lex sed lex - A Lei é dura, porém é a Lei)