Explorando a Desgraça Alheia


Eu não vou me juntar às vozes repetitivas que estão faturando com o tal "massacre" de Realengo.  Para mim, já deu. 

Não vou bancar a analista ou especialista de botequim, procurando justificativas técnicas ou psicológicas para o que aconteceu na cabeça do assassino, até porque o que não tem faltado é análise a respeito e eu também não sou especialista em nada.

Com sinceridade, não cheguei a chorar, mas também não deixei de ficar chocada com tamanha violência e perdas irreparáveis. Mais uma tragédia na vida de várias pessoas, familiares, amigos, vizinhos. Isso, ninguém poderá negar.  Tragédia também, talvez a maior, foi a própria vida do rapaz, uma sequência de humilhações que resultou numa baixa auto-estima, que o levou a ser o que foi e a fazer o que fez.

Diante de tantas coisas, o que mais me tem chamado a atenção é a falta de respeito e de sensibilidade das pessoas que estão lidando com as crianças, principalmente os jornalistas. Todos querem faturar em cima desse grande acontecimento, que vende muitos jornais e revistas, e eleva o IBOPE de muitos programas de TV. E isso tem me deixado profundamente irritada, a ponto de nem mais querer ler ou ouvir falar dos tais acontecimentos.  É tudo repetitivo e, portanto, igual.

As crianças, vítimas diretas ou indiretas, estão sendo expostas de uma maneira brutal e parece que ninguém está percebendo isso! Os repórteres e jornalistas, claro, têm que produzir matéria, pois esse é seu ganha pão!  Mas, e os pais? Por que deixam seus filhos serem explorados dessa forma?  Por que não preservam suas crianças, dando a elas o tempo necessário para processar todo o trauma que sofreram? Não. Jogam seus filhos na boca do leão.  E quando eu vi uma criança no programa do Faustão, então eu percebi que tem alguma coisa errada nos valores de muita gente. Não consigo entender essa necessidade vital de aparecer, de se mostrar, mesmo que diante de tanta dor, de tanto sofrimento!

Não sou melhor do que ninguém, não quero aparecer, não sou superior, mas, vou confessar uma coisa: se fosse no meu caso, eu não iria expor o Davi a qualquer tipo de entrevista, programa, jogo de futebol, entre tantas outras exposições que estão acontecendo por conta da desgraça alheia!  Não iria mesmo! Acho tremenda falta de respeito com o sentimento da criança, porque a mídia usa e abusa da ingenuidade das pessoas para extrair seu interesse, e depois, assim como se faz com qualquer coisa sugada, joga fora.

A tragédia de Realengo vai ficar na memória de muita gente, não há dúvida. Mas daqui a algum tempo vai ser página virada nas manchetes. Talvez alguma coisa mude, mas muitas outras coisas vão voltar à normalidade, como já é de praxe, afinal, a vida continua, mesmo que capenga, mas continua.

E você? O que você acha dessa superexposição das crianças envolvidas, diretamente ou não, na tragédia de Realengo? É normal? É exploração? Ou eu é que sou chata mesmo?

Atualização: 20/04/11 - O meu queridíssimo leitor Alexandre Silvestre me mandou um link em que o blogueiro Mauricio Stycer tem uma percepção bem parecida com esse tópico.  Quando puder e se quiser, vá  lá:
http://mauriciostycer.blogosfera.uol.com.br/2011/04/20/em-busca-da-noticia-e-de-cenas-dramaticas-em-realengo/