Investimentos

Uma vez eu ouvi dizer que ter um carro era como ter um filho. A depender do modelo e ano, os gastos com impostos, manutenção, seguro e combustível podem abalar o orçamento de muita gente. Um carro novo certamente irá apresentar menos problemas, porém não poucos gastos.  Se for um modelo mais antigo, então as despesas podem se tornar constantes e imprevisíveis.

Ao planejar ter filhos, alguns casais mais pragmáticos colocam na ponta do lápis algumas das maiores "despesas" desse empreendimento, às vezes com cálculos e projeções para vários anos, do tipo, "da creche à faculdade", por exemplo. Em muitos casos, muitos acabam desistindo por conta do grande aporte financeiro a ser dispensado nessa empreitada. Concluem que é muito mais fácil e barato ter um carro, mesmo que antigo e cheio de problemas. Algumas vezes, porém, os cálculos dão errado e quando recebemos aquela trouxinha de gente nas mãos, todas as projeções financeiras desaparecem.

Me lembro da época em que não tinha filho e ficava horrorizada com o preço das coisas de crianças.  Era comum eu fazer um pequeno escândalo todas as vezes em que me deparava com  um pacote de fraldas descartáveis ou com uma lata de leite em pó específico para os primeiros meses, além da grande indignação com aquela lista quilométrica e até abusiva de material escolar.  A frase mais utilizada era: ter filhos não é para qualquer um. Mas aí, meus cálculos saíram errados também.

A verdade é que filho não é barato. Claro, estou me referindo para aquela família cujo casal trabalha fora o dia inteiro e se rasga para pagar as contas a fim de viver com um mínimo de decência que,  no meu entender, é ter um lugar  e uma alimentação razoáveis, um plano de saúde - mesmo que o mais caído - , alguma diversão ou passatempo e, pelo menos, aquele "filho" de que falei acima. Ou seja, a classe média, bem média mesmo, que um dia estudou em escola pública - aquela que não existe mais - e que hoje se esforça em dar ao(s) filho(s) uma educação acadêmica também razoável também. E que geralmente não é barata.

É fácil ter filhos ou, como se diz de forma meio pornográfica, é fácil fazer filhos. Mas criá-los dentro de condições mínimas ou médias em termos de educação e alimentação não é tão fácil assim.  Não  significa que no passado a educação da escola e da casa fossem mais tranquilas.  Havia dificuldades, sim, porém, a tal da classe média frequentava uma escola pública que tinha potencial para formar alunos capazes de ingressar em universidades de grande porte, geralmente públicas também.

Apesar de vivermos hoje em uma economia estável, ainda assim "custear" filhos não tem sido barato.  Com a falência múltipla da educação pública*, muitos se esforçam em colocar seus filhos em uma escola particular que seja no mínimo razoável também e que caiba no bolso ao final do mês. Creio que, em termos financeiros, seja esse o maior desafio de muitos pais e mães. A célebre frase "vou dar ao meu filho tudo o que eu não tive" pode ser interpretada também como esse esforço em dar uma melhor educação e alimentação. Claro que há casos em que alguns pais dão um passo maior do que as pernas para agradar suas crianças, fazendo absurdos e se enterrando em dívidas, mas aí já outra história. No meu caso, eu tento sempre andar dentro dos meus limites, mesmo que às vezes eles sejam menores que meus passos, o que também não me isenta ultrapassá-los vez ou outra, afinal, eu sou mãe, né!

Como muita coisa é novidade para mim, e com a chegada do fim do ano e o começo do outro, já recebi várias "circulares" da creche a respeito de uniforme, rematrícula e material escolar.  Tudo-ao-mesmo-tempo-agora.  E que pancada dolorida no bolso! Soma-se a isso o fato de Davi fazer aniversário também no fim do ano, e mesmo que a festinha venha a ser também na creche, não significa que não haverá custos. Sem contar também com os festejos natalinos.  Portanto, segue um conselho: se quiser ter filhos, faça os cálculos para que ele nasça bem antes ou bem depois desse período!

Há pessoas que investem em ações nas bolsas de valores com a garantia de um retorno financeiro confortável.  Outras se arriscam mais e às vezes perdem tudo, até a saúde ou a vida.  Eu investi em ter filho, e não me arrependo, pois mesmo sabendo que o custo é pesado, a felicidade e a realização pessoal que aquele moleque me traz vale cada centavo.

Mesmo que meus cálculos tenham saído totalmente errados!


* Existem, ainda, excelentes escolas públicas no país, graças a Deus.  Mas são uma ínfima exceção, infelizmente, afinal, educação não é prioridade do nosso Governo.