40 Minutos

A gente sabe que a vida é regida por espaços de tempo que podem ser chamados de anos, séculos, milênios e suas tantas divisões.

Creio que não tenha sido a invenção do relógio ou do calendário o que sempre regrou a vida das pessoas porque, assim como os animais e a natureza, o ser humano tem um tempo para determinada coisa, do nascer ao morrer.  Ou seja, tudo tem o seu tempo, mesmo que a gente ache que tem o controle sobre ele.

Dizem que quem mora no campo sente o tempo de outra maneira, e realmente parece que quando a gente está longe do agito da cidade grande o dia mostra  o tamanho das suas 24  horas com mais clareza. Mas quando esperamos ansiosamente por alguma coisa, parece que o tempo se arrasta e dobra de tamanho, acabando com as nossas unhas e nos enchendo de úlceras nervosas.

A vida "muderna" é regida pelo Senhor Relógio, que deixou há  muito tempo seu posto de assessório para se tornar, muitas vezes,  um senhor feudal ou um líder autoritário, que nos tira a liberdade de escolha.  Por outro lado, às vezes perdemos tempo com o que não é tão importante e deixamos escapar das nossas mãos um momento que não vai se repetir nunca mais, tudo por conta da nossa subserviência ao tempo ou, pior, à falta dele.

Pensando nisso, foi que outro dia fiz uns cálculos e cheguei a um resultado que me chamou a atenção: meu tempo diário com Davi gira em torno de 2h30.  Na parte da manhã, tenho uma convivência de aproximadamente 40 minutos, entre acordá-lo, dar um pouco de carinho e arrastá-lo rua afora em direção à creche.  Ao chegar em casa, se tudo correr bem, ou seja, se o trânsito e a Supervia se comportarem direitinho, consigo ficar com o guri por 1h50 minutos, isso se ele ainda estiver acordado porque, se não, o tempo pode ser reduzido a 30 ou 40 minutos.  No fim de semana, claro, temos a compensação de convivermos o dia inteirinho juntos, apesar das pausas para os afazeres domésticos, que algumas vezes também ocupam uma boa parte do dia.

Eu vivo na correria. Uso 3 conduções para ir trabalho e voltar. E quando uma dessas conduções demora um pouco que seja, acontece uma espécie de efeito-bola-de-neve, porque aí eu perco a outra e a outra. E um dia desses, na ganância de pegar um ônibus para tentar adiantar o tempo, larguei  Davi no portão da creche, sem ter dado, sequer, um beijo nele. Só que essa  pressa  toda não alterou em nada o tempo que eu perdi no trânsito daquele dia, porque as outras conduções acabaram atrasando.

A gente sabe que o importante não é o tamanho mas a qualidade do tempo que passamos com nossas crianças, porque não adianta nada ficar com o filho o dia inteiro e dar atenção à vida dos outros, à TV, a nada, deixando a criança lá, largada à própria sorte.  Saber administrar o tempo nesses tempos bicudos de falta de tempo é uma arte que deve ser aprimorada cada vez mais, a fim de que todas as atividades caibam nesse tempo tão curto, até porque eu concordo que é muito importante estabelecer uma rotina na vida das crianças.

Naquele dia, depois de enfrentar ônibus, trem, metrô e ainda assim não ter nenhum adicional no tempo por conta de uma condução que chegou só alguns minutinhos mais cedo, eu me dei conta de que não posso desperdiçar esses segundos da presença de Davi. Porque um beijo, um abraço na porta da creche, ou da escola ou mesmo de casa não podem - NÃO PODEM  ficar sujeitos à tirania do tempo ou do relógio. Até porque, como a gente também sabe e como eu também comentei neste post, tudo passa tão rápido pois o tempo, em se tratando do crescimento das crianças, é implacável.

Vai chegar um tempo em que a presença de Davi será menor.  Ele terá outras ocupações e interesses, e pouco tempo para seus pais.  Assim será porque assim é e assim foi. Sempre foi assim. Não estou aqui dizendo que quero viver e respirar Davi, da mesma forma que não quero que ele viva para mim.  Mas não posso deixar que o relógio ou a condução venham abocanhar alguns segundinhos dos meus míseros 40 minutos, porque às vezes tudo sai diferente do planejado e o tempo de dar um beijo ou um abraço acaba sendo desperdiçado num trânsito infernal ou na espera de uma condução atrasada.

E depois de achar meio brega e batida, acabei adotando aquela frase que só surte efeito quando a gente perde a oportunidade, que diz:  Você já beijou seu filho hoje?