Aquele Famoso Filminho

Em quase todas, ou em todas as tragédias os relatos mais surpreendentes são dados pelos seus sobreviventes.  Pessoas que depois de várias horas, dias ou mesmo semanas, conseguiram sobreviver por conta de uma fresta no meio dos escombros, ou por um fio de água que jorrava de algum lugar no meio da escuridão, ou porque conseguiram se comunicar pelo celular.  Enfim, as histórias são provas de que cada um tem "sua hora", como se diz por aí.

E quando acontece alguma coisa que toma uma proporção trágica há também o relato daqueles que "quase" foram vítimas do acontecimento. Aquela pessoa que não entrou ou saiu do prédio, a outra que perdeu o vôo, uma que passou alguns minutos antes da explosão ou do tiroteio, e quem esteve no local até bem antes do acontecido e imagina se estaria viva ou morta caso a tal tragédia acontecesse naquele exato momento.  Ou seja, passa sempre aquele "filminho" na cabeça de cada um. E comigo não foi muito diferente.  

Essa foto aí de cima mostra em cores vivas os prédios que desabaram ontem à noite aqui no Rio de Janeiro.  Ainda não se sabe o motivo, mas o que se tem é que 3 prédios vieram abaixo, juntamente, até agora, com 20 pessoas.  Apesar de a tragédia ter acontecido bem após o horário de expediente, que geralmente se encerra às 17 ou 18 horas, havia muita gente nos prédios, por motivos dos mais variados, além das outras que transitavam na calçada e nos arredores. Mesmo assim, ainda que fosse só uma vida perdida, ainda é muita coisa.

Estive em uma loja que ficava no prédio azul da foto, em torno das 13 horas da tarde, horário do almoço que, claro, enche as ruas de pessoas à procura de seus interesses e de algum lugar para comer, como o restaurante que fica no prédio grande da esquina, de onde se vê o toldo verde.  Já almocei algumas vezes ali também, pois trabalho a uns 2 quarteirões de distância. Apesar de não ter demorado muito, também não estava com muita pressa e gastei em torno de uns 10 minutos dentro da loja, olhando seus produtos - era uma loja de produtos naturais.  Além dela, havia também uma sapataria e uma agência bancária.  Tudo, claro, virou pó.

Quando as primeiras notícias começaram a pipocar na TV, a primeira coisa que me veio à mente foi o tal filminho porque, como eu estive naquele local, imaginei que os prédios poderiam ter caído naquele momento, afinal, daquela  hora até à tragédia, nada aconteceu de diferente, como um escapamento ou explosão causada por gás, por exemplo. O que aconteceu tinha que acontecer depois das 20 horas, não em torno das 13, mas bem que poderia.

Além de me entristecer bastante com as vidas perdidas, perdas que se refletiram em várias famílias, a única pessoa que veio à minha mente foi Davi, claro, porque me imaginei também como vítima fatal e meu filho sem mãe. De alguma forma, essa tragédia também me atingiu.  Agradeci a Deus pelo livramento, por não ter chegado ainda a "minha hora", mas nem por isso estou mais aliviada.  Pode ser dramalhão da minha parte, mas as mães são dramalhonas.  E não deveriam, NUNCA, morrer antes dos filhos enquanto eles ainda não soubessem se virar sozinhos. E, claro, os filhos deveriam ser proibidos de morrer antes de seus pais, contrariando a ordem natural das coisas.

Por outro lado, a vida expõe a gente a tudo isso, porque as tragédias e fatalidades estão aí, mostrando sua cara e chegando na vida das pessoas, na "hora delas", às vezes injustamente. Há coisas evitáveis e inevitáveis, e lidar com essas últimas sem ficar neurótica ou psicótica é um desafio muito grande, porque na minha experiência como mãe, eu acho que tenho que ter controle sobre quase tudo, de forma a garantir uma vida longa e plena para Davi, longe de tragédias e fatalidades. É um desejo muito bonito, mas que incute também um certo egoísmo, porque no fundo o que eu não quero é perder meu filho, nem deixá-lo, ainda pequeno, sem mãe.

Mas não é assim. Nem sempre é assim, e quando uma tragédia respinga um pouquinho que seja em nós, a gente vê como a vida é frágil, sutil, efêmera.  O ser humano não foi criado para morrer e sim para viver, muito, sempre (mas aí já é outra história, claro).  E quando a gente vira mãe, quando a gente acha que a nossa vida fica menor quando o filho chega, nessas horas é que a gente sente o quanto quer e precisa dela, bem longa, para que no fim vejamos nossos filhos crescidos, se virando sozinhos para que um dia possamos nos despedir deles - da vida e dos filhos -, de forma plena e realizada, com aquela velha e gostosa sensação de dever cumprido.

Mas até lá, talvez alguns filminhos ainda passarão nas nossas cabeças...