Mãe Biônica

Existem pessoas que vivem dizendo que sentem saudades dos "velhos tempos", da época em que o leite fresquinho e sem água que era entregue na porta de casa, das frutas e legumes que eram cultivados nos fundos do quintal, do galinheiro que fornecia ovos enormes e galinhas gordas, das serestas ao luar.

Só que, como são as coisas da vida, esses "velhos tempos" não eram tão fáceis assim, principalmente para as mulheres.  Tudo era feito em casa, a começar pelo parto, que era natural, sem anestesias, com parteiras.  Da manteiga até a galinha na panela, tudo era manual, doloroso e trabalhoso.

O destino das mulheres já era previamente traçado: saíam das garras de seus pais e iam para as dos maridos, muitas vezes previamente escolhidos.  Nessa jornada, tinham que se preparar no crochê, nos bordados e nas panelas.  E passar a maior parte da vida tendo filhos, muitos filhos, muitos e muitos, já que o controle de natalidade passava, no máximo, pelos cálculos da velha tabelinha, que muitas vezes dava errado, e aí, vinham mais e mais filhos. Por causa de tantas dificuldades, às vezes eu não consigo entender como ainda alguém sente saudades desses tais velhos tempos.  Só se for saudades do leite, dos legumes e frutas orgânicos - cujo preço hoje é um absurdo - e da galinha gorda.  Só.

Mas depois que a mulher começou a ser dona do próprio nariz, saiu das barras do pai e do marido e foi ganhar a vida, ser independente, queimar soutiãs (que eu tenho certeza que não eram da Victoria's Secret), tomar pílula e decidir fazer o que quisesse. E decidir quando e quantos filhos quisesse ter.  E eis que chega uma geração de moças não muito prendadas, que não têm muito jeito ou tempo para crochês, tricôs, panelas e vassouras.  E essa geração, dona do seu próprio nariz, muitas vezes tem que dividir as despesas do lar com o companheiro e, por suas próprias razões, resolve colocar seu(s) filho(s) numa creche, em tempo integral ou não.  E para muitas (eu?), isso é o começo das dores da culpa, já que não terão a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento de suas crianças. Ai, meus sais....

No geral, a creche resolve duas questões básicas: cuida e inicia a criança no aprendizado escolar.  A depender da instituição - e a cada dia as creches estão mais parecidas com uma universidade de grande porte - a criança é introduzida às primeiras letras e números, línguas estrangeiras, informática, atividades físicas e a  moderníssima conscientização ambiental. Tudo isso entre algumas mamadas, sonecas, refeições, banhos e trocas de fraldas (e é aí que eu penso que quem trabalha em creche tem que ter dom, praticamente um chamado divino, uma missão na Terra, porque cuidar de criança com toda essa bagagem é muita responsabilidade e requer muita, mas muita paciência).

E como eu já falei por aqui e não me canso de repetir, creche sempre foi meu objetivo quando tivesse filho.  Mesmo que não trabalhasse fora, eu tenho certeza de que colocaria o Davi numa creche, mesmo que só uma parte do dia.  

Por um lado eu fico tranquila porque eu vejo os resultados desse investimento (que não tem sido barato): a cada período recebo em casa uma pasta contendo os trabalhos do Davi: Matemática, Estudos Sociais, Inglês, e vejo seu desenvolvimento na fala e na compreensão das coisas.  Por outro lado, me sinto frustrada porque não sou a grande responsável por muitas dessas coisas e penso que as mães de outros tempos, daqueles "velhos tempos", talvez fossem mais heroínas do que as de agora, já que, além de tudo o que tinham que fazer, ainda tinham que educar os filhos.

Davi entrou na fase do desfralde, e eu andei sabendo por aí que ele tem usado mais cuecas do que fraldas na creche.  Quando sente vontade de fazer xixi, pede para a tia mais próxima, apertando o piu-piu como sinal de sua necessidade.  Não testemunho absolutamente nada disso, até porque, nos fins de semana, ele fica de fraldas o tempo todo e nem pensa em pedir para ir ao banheiro, mas já quer ficar de cuecas, mesmo por cima das fraldas.  Acho que ele já captou a mensagem, mas parece que eu é que estou comendo mosca.

Essa minha choramingação toda é para dizer que não serei a responsável pelo desfralde do Davi, pelo menos não totalmente.  Não poderei, um dia, bater no peito e dizer: "fui eu"!!!, coisa que minhas companheiras dos velhos tempos faziam com a maior naturalidade do mundo (ô, inveja)!  Por causa dessas pequenas coisas, às vezes me sinto uma mãe biônica, porque não produzo nada, ou seja, não sou a protagonista dessa fase de desenvolvimento do Davi.  Muitas coisas já chegam praticamente prontas, sem muito da minha participação.  Eu sei que é o ônus da emancipação feminina e da necessidade de se trabalhar fora, mas que fique claro que não eu não tenho a menor vontade de ter nascido em outra época, por melhor que possam ter sido os legumes, as frutas e o leite sem água. E a galinha gorda também.

Então, tudo o que me resta é colaborar um pouco com esse processo, incentivando o uso das cuecas em casa e comprando um troninho. O primeiro item já está à disposição, o segundo, a caminho, até porque eu quero escolher um troninho bem bacana - e que geralmente não custa muito barato, mas, enfim.




Portanto, eis mais um capítulo da lacrimejante novela maternal chamada Lamentações de Luciana, porque essa saga está apenas começando.  Mas....peraí...


Estudos Sociais??????????? Já????