Gladys

Existem pessoas que vivem sem amigos e amigas e outras que não vivem sem eles.  Eu sou do último grupo. Sou privilegiada por ter adquirido, ao longo dos anos, amizades tão profundas, tão verdadeiras e tão resistentes que nem a maior distância ou o tempo conseguem enfraquecê-las.  Me lembro de uma amiga de colégio, a única que tenho dessa época.  Depois que concluímos o antigo 2º grau, perdemos o contato por quase uma década.  Quando nos encontramos, parecia que esse tempo tinha sido o dia passado.  Uma outra casou e foi morar fora do país, mas sempre que nos falamos ou nos encontramos é como se fôssemos vizinhas de porta. Há outras que estão perto e longe, porque as tarefas da vida nos impedem de nos vermos, nem por isso a amizade se dilui.

Amizade, ao meu ver, é mais que um sentimento, é um dom, porque nem todo mundo é tratável ou ... palatável, digamos assim. Assim como nem todo mundo nasce para ser um cantor, há também algumas raras pessoas que não conseguem ter ou ser amigas.  Amizade é também como aquela velha historia da plantinha: tem que regar, com cuidado nem para afogar nem para deixar secar.  Tem que podar, tirar as folhas secas, nutrir o solo, essas coisas poéticas, até porque amizade, além de um dom, também é poesia.  Mas não é quantidade, porque se alguém tiver e ser pelo menos 1 amigo já está no lucro.

Costumo dizer que eu tenho algumas mulheres na minha vida.  Pessoas que conheço há alguns bons anos, décadas até e que, apesar  das distâncias, das diferenças, o que supera tudo é o sentimento, o afeto. A amizade.  Drª Gladys Barbosa é uma delas. 

Não adianta, não consigo chamá-la só pelo nome, tenho que colocar o "doutora" na frente, afinal, foi assim que a conheci.  Assim também como não consigo pronunciar o nome corretamente - GlÁdys -, eu a chamo de GlÊdys e ponto final.  Já está na ponta da língua.  

Drª Gladys foi uma das grandes responsáveis por manter minha sanidade mental e emocional, numa época em que minha cabeça estava um minguau desandado. Uma psicóloga de mão cheia, mas tão mão cheia que não é de passar a mão na cabeça de ninguém - quem a conhece sabe muito bem disso -, mas é uma das raras pessoas que consegue equilibrar firmeza e carinho ao mesmo tempo.  Sendo transparente como é, ela leva a pessoa a ser transparente também consigo mesma e isso muitas vezes é difícil, porque nem todo mundo está disposto a se ver como realmente é. Muitas vezes é mais fácil deixar os parafusos soltos...

Drª Gladys sabe muito sobre mim, é uma das poucas pessoas que eu posso dizer que me conhece muito e bem, não somente por ter "cuidado" da minha cabeça, mas porque também é amiga, de longos anos, muita conversa e muitos apertos de parafusos.

Saquei 10 dias das férias para cuidar da avó do Davi, que foi operada da catarata (ou seja, de férias não tirei nada, né).  Nesse período, além de descansar só um pouquinho e fazer algumas coisinhas em casa, levei Davi para conhecer Drª Gladys, pois a última vez que nos vimos eu ainda estava grávida e ela estava cuidando da minha cabecinha.  Depois que Davi nasceu, nos falamos somente uma vez, e aí o tempo e as tarefas da vida nos impediam de um encontro e uma boa conversa.  E foi isso que aconteceu.

Davi é uma figuraça, claro.  Já chega no lugar querendo fuçar tudo o que vê pela frente.  No começo, não quis muito papo com Drª Gladys - ele geralmente age assim - mas depois vai se soltando e se entregando.  Foi um encontro maravilhoso e revigorante para mim, porque eu me sentia devedora disso.  Ela me acompanha há tanto tempo, sabe das minhas histórias, dos meus altos e baixos e agora com o nascimento do Davi era quase obrigatório que eu fosse visitá-la.

Infelizmente o tempo foi curto, porque conversar com Drª Gladys parece que abre o apetite para falar sobre tudo.  O mais importante, porém, foi a convicção de que tenho nessa mulher uma amiga, alguém em quem eu posso confiar plenamente, que me conhece e que sempre me ajuda, seja com um gesto ou palavra. Meu afeto por ela é tão grande que não caberia descrevê-lo aqui, porque é imenso, e espero que dure enquanto as nossas vidas durarem.




Aproveitei também para levar para ela uma caixa de chá que eu mesma fiz. Como foi a primeiríssima vez que eu forrei uma caixa de madeira com tecido, acho que não fiz muito feio, não (lixei as beiradas com lixa de unha direitinho, tá?).  Poderia até ter dado um melhor acabamento, mas a falta de tempo falou mais alto. 






Naquele dia, um pouco antes de me despedir, me dei conta de que era o Dia do Amigo, e aí me lembrei dessa poesia de Vinícius de Morais, que fala muito sobre o que entendo por Amizade.  Apesar do atraso, sempre há tempo para homenagear os amigos e amigas, virtuais ou reais, que passam e ficam em nossas vidas. 



Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho
deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o
objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o
ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os
meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos !
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto
minha vida depende de suas existências ...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.

Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto
gosto deles. Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na
sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e
não os procure.

E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são
necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque
eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram
alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo !
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu
bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima
por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não
me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando
comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só
desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos !

A gente não faz amigos, reconhece-os.