Tem Garantia? Não!

O que garante que seu filho será um excelente profissional ou um medalhista olímpico?  Seu investimento financeiro? Suas noites passadas em claro? Sua coleção de livros da Supernanny? Suas orações?

Não sei. Ninguém sabe.  Se a gente não faz ideia do nosso próprio futuro, como pode ter a pretensão de querer controlar o da nossa criança?

A gente educa, com todos os preceitos e princípios morais e éticos, e até religiosos, mas a verdade, a dura verdade, é que nada, absolutamente nada do que fazemos hoje é garantia de sucesso.  Pois é. 

Houve um tempo em que era até mais fácil: se fosse filho de advogado seria advogado; filho de médico, médico.  Filho de fazendeiro, herdeiro que ia para a cidade grande se tornar advogado ou... médico.  Ou engenheiro. Se fosse filha, bem, não teria muito o que planejar, era só escolher um marido para ela e fim.  Filho de reis vira príncipe ou princesa, e se casa  com outro príncipe ou princesa numa cerimônia suntuosa e espetacular, vista em todo o planeta. 

Mas aí o filho do advogado resolve se tornar surfista, o futuro médico quer mesmo é ser ator, o engenheiro descobriu nas panelas cálculos para o equilíbrio entre o sal e a pimenta.  E aquela  princesa chutou o balde para aquele destino repetitivo de se tornar rainha e ter que dar exemplo 24 horas por dia, em todo o planeta.  Isso, na melhor das hipóteses, claro, porque não há nada de amoral, imoral ou antiético em ser cozinheiro, surfista ou plebeu, mas a gente bem sabe que existem outras realidades muito piores, que  não existem nem nos nossos piores pesadêlos.
 
Então, só posso concluir que ter filhos é uma questão de coragem, porque de imediato não pensamos nessas coisas, quer dizer, nós, reles mortais, porque os príncipes e princesas que estão por aí já vêm com o destino mais-ou-menos traçado.  E o "mais-ou-menos" é exatamente porque hoje em dia, nos nossos tempos, não dá nem para esperar que alguma realeza vá honrar o brasão da família, porque já temos príncipes divorciados e recasados e futuros reis que encontraram seu par não no meio da realeza, mas na vida real.

O que fazer, então?  Se a dupla ansiedade x depressão é o mal do nosso século, como não surtar ao pensar que tudo o que planejamos hoje para nossas crianças pode vir a desmoronar? Esse é o pensamento que me assalta de vez em quando.  É quando eu concluo que as coisas que planejo, que projeto, até as mais simples, têm grandes chances de se escorrerem pelos meus dedos porque, na verdade eu não controlo absolutamente nada.

Isso não significa dizer que é para "deixar rolar solto" e "seja o que Deus quiser", mas é tentar fazer um exercício de se conscientizar que podemos fazer tudo o que está no nosso alcance, mas nada é garantia de coisa alguma.  Vamos educar, orientar, conscientizar, vamos fazer. Mas vamos também esperar menos porque se vier mais a gente... está no lucro, digamos assim.  Vamos sonhar, mas sem viver de sonhos, de imaginação, mas de realidade e essa, muitas vezes, é cruel e amarga.

Uma vez ouvi de uma atriz que quando a gente vira mãe acaba se tornando, de alguma forma, religiosa, acreditando que existe um Ser Supremo, porque só acreditando na Providência Divina é que podemos acalmar nossos corações e mentes.

Eu creio em Deus, mas se eu paro para pensar no futuro do Davi, diante de tantas coisas terríveis que vejo vida afora, eu começo a me desesperar.  Dá um nó no estômago, porque eu não sei que tipo de vida ele vai ter, apesar dos meus esforços, da minha dedicação.  E aí, eu tenho que parar, respirar fundo e continuar a viver o momento de agora, porque senão a ansiedade toma a forma de uma montanha intransponível.

A gente tem que confiar no nosso taco também, até porque temos nossa parte de responsabilidades e tarefas, mesmo que, como já disse, tudo o que fazemos não seja garantia de nada.  Mesmo sabendo que devo confiar na misericórdia de Deus, também tenho que fazer o meu dever de casa, não é mesmo?


Já falei aqui algumas vezes que filhos são bênçãos que vêm nos encher de amor e de vida. Por mais trabalho e tensão que eles dêem, ainda assim acho que vale a pena, mesmo que de vez em quando dê uma vontade grande de devolvê-los e pedir o dinheiro de volta.  Mas eu, por exemplo, não devolveria meu neguinho de-jeito-nenhum-na-vida, porque ele é meu chamego, meu xodó, meu cheiro, meu pedaço de gente no mundo.

Mas que de vez em quando dá um medinho.... ah, dá!