Sísifo

Sísifo, de Tiziano, 1549 - Fonte: Wikipedia
Diz a lenda grega que Sísifo fez uma malcriação aos deuses e foi punido com a tarefa de empurrar uma enorme pedra até o ponto mais alto de uma montanha.  Quando, enfim, lá chegava, a pedra rolava abaixo da montanha e ele tinha que começar tudo de novo. Mais do que uma correção, essa era uma maldição, visto que ele teria que passar toda a sua vida empurrando a pedra que iria rolar e voltar ao mesmo lugar no pé da montanha.

Claro que esse é um resumo bem grotesco da história, mas que reflete um pouco o que tenho sentido ou passado em relação à hipospadia do Davi.

Já faz mais de 3 meses desde a última vez que levei Davi para o fechamento da fístula. Eu sabia perfeitamente que, após mais essa cirurgia, ele deveria continuar as dilatações, como comentei aquiO tempo foi passando e nada de levá-lo.  Ao observar seu jato, percebia que não estava lá essas coisas, mas também não era tão fino assim, nada que fosse grave ao ponto de causar uma retenção de urina, que poderia causar uma inflamação ou coisa parecida.

O que eu queria, na verdade, era ver ou considerar que as coisas entraram num ritmo normal.  Não foi negligência da minha parte - logo eu, toda trabalhada na neurose.  Acho que foi cansaço misturado com negação dos fatos.  Sabe quando você sabe que tem que fazer uma coisa e vai enrolando ou vivendo como se não precisasse fazer?  É mais ou menos por aí.  

Durante esse tempo, Davi tem estado muito bem, não apresentou nenhum problema relacionado à sua função de urinar e tem levado sua vidinha de forma normal, como qualquer criança da sua idade.  Mas ele tem que fazer as dilatações  e elas têm sido a minha "pedra de Sísifo".

É claro que não vou deixar que as coisas cheguem ao ponto da complicação, porque aí, sim, eu acho que me mataria de culpa por não cuidar de Davi da forma correta.  Mas ter filho com hipospadia é como empurrar pedras montanha acima: desgasta, demora e muitas vezes temos que começar do zero, no nosso caso, em cada mês.

Os momentos mais críticos já passaram, mas também não posso achar que só porque as coisas estão se normalizando elas estejam normais.  Não estão.  E se existe uma coisa bem ruim que às vezes fazemos conosco é negarmos um fato que esfrega sua existência na nossa cara.  Não sei se isso se chama autoenganação, mas a verdade é que eu estou bem cansada dessa trajetória.  Gostaria, claro, de não precisar passar por tudo isso, eu e ele, que é quem mais sofre, afinal.  Mas já que é para ser, então temos que renovar as nossas forças e esperanças para empurrar essa pedra montanha acima, mesmo sabendo que ela vai rolar para baixo.

Claro que não chega a ser uma maldição de Sísifo, afinal, ele teria que passar sua vida inteira só fazendo isso.  Nem por isso deixo de ficar cansada, por esperar horas a fio pela democracia da internação, depois ir para o centro cirúrgico, ver Davi ser anestesiado e o canal da uretra ser dilatado.  Deixá-lo sem comer também por horas a fio e tentar dar uma enrolada, afinal, nem todas as crianças que estão esperando atendimento estão em jejum e aí, rola um biscoito aqui, um suco ali, uma mamadeira.  E aí temos que distraí-lo para que ele não comece a chorar de fome e queira comer alguma coisa.  Ao final do dia eu sinto como se tivesse envelhecido uns 20 anos, sem exageros.

Diferentemente dos deuses de Sísifo, que são muito temperamentais - os deuses gregos são muito geniosos - o meu Deus, que é um só, tem me sustentado e é Nele que eu retiro as minhas forças.  Como a chuva cai sobre os bons e sobre os maus, não sou privilegiada em nada (até porque, mesmo sendo uma pessoa boa, às vezes eu também sou má),  pois a vida é assim, cheia de desafios, altos, baixos, idas, vindas, essas coisas bem lugar-comum que a gente sabe mas que às vezes, no meio de uma caminhada cansativa, a gente se esquece que pode ser alcançado por elas e começa a se autopiedar, o que é péssimo, já que ninguém e tão santo assim a ponto de ficar imune aos ventos da vida.

Semana que vem irei subir a montanha mais uma vez, empurrando minha pedra que, diferente da de Sísifo, eterna e maldita, terá um fim e não vai rolar montanha abaixo, pelo contrário, ficará firme e fixa no alto da montanha para ser admirada e para servir a um bom propósito, mesmo que, no momento,  tudo seja cansativo e interminável.