O Verão... e Eu!

Quando a gente cresce e olha para o tempo em que éramos adolescentes ou crianças percebemos o quanto a vida traz mudanças e aí vemos que algumas coisas das quais gostávamos não gostamos mais.  Me lembro que quando era pequena eu acho que gostava do verão.  Na verdade, eu acho que as crianças, de modo geral, gostam do verão mais por causa das férias escolares, da oportunidade de não terem horário fixo para acordar ou dormir ou comer e para poderem ficar mais tempo brincando na rua ou... na praia. Sim, houve uma época em que crianças brincavam na praia ou na rua, o dia inteiro, e curtiam suas férias ao ar livre.

Eu também era assim, e me lembro de ir à praia em dias de verão com aquele sol de rachar côco.  Me lembro de usar óleo bronzeador, de não ficar embaixo de barraca e no máximo usar um bonezinho e nada mais.  E de ficar esturricando na areia, igual a um calango, porque o mais legal de tudo era a marca do biquini, de poder se olhar no espelho e só conseguir ver o branco dos olhos e as marcas do bronzeamento.  Era o verão!  Eram as férias escolares, era o calor, e a marca do biquini era a prova cabal de que esses dias tinham sido maravilhosos.

Quase tudo acontece no verão, a começar pelo nosso calórico Natal.  Até eu descobrir que Papai Noel virou uma profissão bem rentável, ficava morrendo de pena daqueles homens usando aquelas roupas quentíssimas, além de botas, gorro e barbas, embaixo do sol inclemente nas ruas da cidade.  Se em 40 graus de temperatura a sensação térmica é de 45, imagina embaixo daquele edredom chamado roupa de Papai Noel? E a Ceia Natalina? Existe coisa mais quente do que essa, além da temperatura?  Peru, farofa, pernil, castanhas, nozes, vinho, rabanada, coisas que não costumamos comer nem no próprio inverno estão presentes na maioria das mesas nessa ocasião do ano.  Foi há pouco tempo que descobriram que vivemos num país tropical e aí alguém teve a fantástica ideia de adaptar a Ceia de Natal para a nossa temperatura ao inserir saladas e frutas.


O verão também traz, além dos modismos de sempre, algum filme bobo e uma música-chiclete acompanhada de um passinho, que todo mundo dança em qualquer lugar.  E tem também o Carnaval.  Ah, o carnaval, época em que se pode tudo, até ficar sem roupas, afinal, além de ser uma festa o calor está insuportável, não é?  Então, bora para a praia pegar aquele bronze total para ficar com marquinha de biquini, para depois mostrá-lo na avenida ou nos blocos de rua.  Ah, o verão...

E o verão me trouxe também o Davi, que nasceu no verão mais quente dos últimos 50 anos, em que  a cada dia a temperatura girava em torno de uns 45 graus, o que me forçou a ficar dentro de casa praticamente uns 3 meses seguidos, pois eu só saía para levá-lo a alguma consulta, afinal, os dias eram tão quentes que já começavam com mais de 30 graus.  Aliás, assim como eu, Davi também não é muito chegado a calor, pelo contrário, fica irritado igual a mim.

Um dia eu cresci e percebi que eu não gosto do verão.  Eu detesto o verão. Quer dizer, mais do que o próprio verão, eu não gosto é de calor, porque isso independe da estação climática.  Esse ano, por exemplo, tivemos, em pleno inverno, dias sequíssimos, beirando aos 37 graus.  Mas se a característica do verão é o calor abrasador, então é a época dos meu tormento climático.

Em uma de minhas teorias, eu acho que verão tem a ver com quem tem dinheiro.  Sim, porque quem tem dinheiro pode ter uma casa de praia ou morar perto de uma e pode ficar com o ar condicionado ligado o dia e a noite inteirinhos sem as pobres preocupações com a conta da luz.  Se não gostar do calor, pode viajar para um lugar frio - ou não tão quente - e vai esquiar e se empanturrar de roupas, enquanto a mulambada fica aqui no calorão achando o máximo ir para uma praia lotada, para uma piscina lotada, para um shopping ou qualquer-coisa-ou-lugar simplesmente lotados!

Porque o outro nome para o verão é lotação.   E quanto mais gente, mais calor, e quanto mais calor, mais eu transpiro.  E quanto mais eu transpiro, mais irritada eu fico e ultimamente concluí que cheguei ao fundo do poço porque no verão, ao invés de marquinha de biquini, eu uso toalhinhas para me secar!  Sim, aquelas mesmas toalhinhas usadas pelas vovós ou mulheres que estão entrando na menopausa.  Porque não adianta andar de leque ou de chapéu, pois nada aplaca meu calor e as toalhinhas só servem para me dizer que o verão e eu não nascemos um para o outro.  Eu o odeio e ele não me ama.

No verão falta água.  No verão falta luz.  No verão falta gelo para o churrasco.  No verão tem mosquitos, quer dizer, mais mosquitos.  No verão tudo fica mais caro, a começar pela água de côco, que já se tornou um indicador financeiro da inflação no verão.  E se já não bastasse o próprio verão, temos também por aqui o Horário de Verão, que eu até hoje não sei exatamente para que serve. Quer dizer, a menos que você more na zona sul, a área nobre da cidade e que tem praia, porque aí, sim, o Horário de Verão faz algum sentido, e você pode chegar na praia no final do dia e ficar umas 3 horas, mergulhando, correndo ou brincando, sob a luz complacente do sol, e ainda chegar cedo em casa. 

Realmente eu ainda me espanto com quem diz que gosta do verão e imagino que alguém também se espante com o fato de que eu, moradora do Rio de Janeiro, cidade "point de verão", deteste o verão.  Mas eu não gosto.  Eu detesto.  E se tivesse condições financeiras, eu iria para outro lugar, talvez não tão quente, e ali esperaria essa época passar.  Acho que nem se eu morasse perto da praia eu iria gostar do verão, porque além dele eu detesto o calor.
 
O verão está chegando e ao invés de eu me matar numa academia para ficar gostosa (já que eu não tenho tempo), eu já vou começar a catar as minhas toalhinhas da vovó, até porque, como eu já falei por aqui, é muito difícil eu ir à praia nessa época, que fica lotada de gente se digladiando por um espaço na areia quente.

A cada verão eu fico mais sem entender como foi que um dia eu gostei do verão, mas as toalhinhas estão aí, para me mostrar que a infância já se foi e agora os tempos são outros.... e cada vez mais quentes.



Apesar do calor, os dias têm sido muito mais desafiadores porque tenho passado por momentos bem delicados com "os meus".  Depois do susto que o pai do Davi me deu, Davi começou a semana com conjuntivite e febre, sinal de inflamação na garganta.  Eu quase morro quando Davi tem febre pois, ao meu ver, isso é sinal de que algo não está funcionando direito e que eu não sei o que é exatamente.  E se já não bastasse vê-lo chorando e aflito com os olhinhos colados por causa da conjuntivite, no momento do desespero, ao invés de aplicar um colírio, coloquei um remédio para cera de ouvido!

Quando me dei conta do erro, pedi a morte, claro.  Mas como eu não posso morrer por agora....

Depois encontrei o remédio certo e apliquei, como paliativo, até dar tempo suficiente de levá-lo ao Pronto Socorro, para ele ser devidamente medicado.  Ufa...