O Desfralde e a Caixa D'água

O Davi é uma criança bem interessante: quando a gente pensa que ele ainda está indo, ele já voltou, e aí nos deixa de queixo caído, talvez para nos mostrar que de bobo ele não tem nada.

Há alguns meses a creche começou a pegar pesado no desfralde, afinal, crianças na idade dele já estão no ponto de iniciar esse processo.  O esquema geralmente era assim: Davi ia de fraldas, pela manhã, que eram tiradas na creche.  Ao voltar, vinha de fraldas e aí ficava e virava a noite assim.  Um dia, ao sair, o pai notou que ele estava sem fraldas e pediu para a "tia" colocar.  Aí ela deu um puxão de orelhas nele, dizendo que não achava legal, já que havia um esforço em desfraldá-lo.  A partir de então, Davi passou a voltar para casa sem fraldas, massssssss... como ele é bem tinhoso, acabava fazendo xixi no meio do caminho ou quando chegava em casa.  E aí, fralda nele.

Não foram poucos os momentos de tensão, porque eu me esforçava para deixá-lo sem fraldas nos fins de semana.  Mesmo assim, e apesar de dizer para ele pedir para fazer xixi/cocô no troninho, ele não me pedia e fazia onde estivesse.  E lá ia eu com aquele clássico blá, blá, blá: filhinho, quando você quiser fazer xixi/cocô, fale com a mamãe e faça no troninho.  Não adiantava nada e houve horas, sim, em que eu perdia um pouco a paciência.

E assim como todas as mães modernas, lá ia eu enfiar minha cabeça na internet à procura de "dicas de desfraldes", dentre as quais:

1. Espere o momento certo
2. Deixe-o aprender pela imitação 
3. Providencie o equipamento correto 
4. Ajude seu filho a se acostumar ao penico
5. Compre cuecas "especiais"
6. Crie uma estratégia para o desfraldamento
7. Ensine primeiro a fazer xixi sentado, depois em pé
8. Deixe-o circular pelado
9. Facilite as coisas
10. Tudo menos demonstrar frustração ou raiva
11. Apele para a diversão
12.Saiba a hora de tirar a fralda da noite
13. Faça a festa quando as fraldas forem embora de vez
Um dia, ele sinalizou que queria fazer xixi e saiu correndo para o banheiro.  Lá fui eu atrás, na tentativa de ajudá-lo.  Ele vez um xixi no troninho, e depois eu o orientei a jogar o xixi dentro do vaso e dar "tchau" para o xixi, não sem antes eu ter feito o clássico carnaval de mostrar o xixi para a casa inteira.  Ok, mas na vez seguinte lá estava ele todo molhado porque havia feito xixi nas calças.


E foi assim por praticamente quase 2 meses, até que, de repente, ele começou a ir fazer xixi sozinho - e não foi no troninho.  Levantava a tampa do vaso, chegava bem pertinho e ficava na pontinha dos pés e fazia o xixi.  Depois de um tempo, e não sei se ele aprendeu na creche ou adaptou, passou a "montar" no vaso, assim como se monta num cavalo, e lá faz seu xixi.  E a cada ida ao banheiro, aprende também a lavar as mãos e a dar descarga.  Nos últimos dias, já que está de molho em casa por causa da conjuntivite, acabou descobrindo que existe mais outro banheiro, e aí, faz xixi em um e em outro.  E a cada ida ao banheiro, além de lavar as mãos, ele dá descarga.   Na verdade, ele nem gosta muito de lavar as mãos, e sim apertar o botão da caixa de água, só para ver o xixi ir embora no redemoinho do vaso.

E ontem ele pediu também para fazer cocô.  Dessa vez, como era a primeiríssima vez dele, eu o ajudei a subir no vaso e, sentado de frente, fez sua necessidade.  Não sei se nesse caso específico ele vai continuar a fazer cocô assim, mas já é um bom começo.  Eu sei que existem casos em que a criança é desfraldada de uma vez só, mas Davi ainda dorme de fraldas e para mim o desfralde noturno já é uma outra etapa. Acho que primeiro o desfralde diúrno tem que estar bem definido para só então partirmos para o desfralde noturno.

Enfim, o desfralde do Davi tem sido melhor do que eu esperava e o mais importante, o que mais me deixa feliz da vida, é perceber que ele faz xixi direitinho, ou seja, normal como qualquer criança que não tenha nascido com hipospadia.  É interessante porque nós, seres humanos, muitas vezes só damos importância às pequenas coisas quando elas fazem grandes diferenças, porque fazer as necessidades fisiológicas é algo tão natural... mas para quem não tem problemas!  Minha sensação é de dever cumprido, depois de todas essas idas e vindas em hospital e centros cirúrgicos, de tantas anestesias gerais e de, até agora, 3 cirurgias.

Daqui a uns 2 meses Davi fará 3 anos e nunca vou me esquecer do momento em que ele nasceu e que entre as informações desagradáveis fiquei sabendo que ele era portador de hipospadia, algo do qual eu nunca havia ouvido falar na vida.  Me lembro da primeira consulta pediátrica, quando ele tinha apenas 15 dias.  Como eu não tinha nenhuma indicação de médicos, consegui uma consulta-relâmpago no Méier, afinal, era o começo do ano e muitos pediatras não estavam disponíveis.  Me lembro de uma senhorinha me parando no meio da calçada do Méier, eu toda inchada com Davi pequetito no colo, e ela me disse: minha filha, não se preocupe, porque ele vai crescer e vai ficar forte.

Me lembro da Drª Rosa falando sobre a hipospadia e me indicando o Dr. Paulo Tavares, da AMIU.  Me lembro da primeira consulta com Dr. Paulo Tavares, que me explicava sobre a hipospadia e como seria o tratamento.  Eu chorava descontroladamente, achando que não teria solução e me perguntando o porquê daquilo tudo.  Aí, meu plano de saúde mudou, e comecei a levar Davi para a Drª Andréia, a atual pediatra, que indicou o Dr. Martinelli.

Me lembro da primeira consulta com ele, que também me explicou tudo o que seria feito, e eu chorava copiosamente.  E sempre, em cada fim de consulta, me lembro do Dr. Martinelli me abraçando e dizendo que tudo ia dar certo. E que eu chorava e chorava.  E me lembro que na primeira cirurgia do Davi eu não chorei, mas tempos depois eu desabei de chorar.

E é como se, ao olhar para trás e me lembrar de todas essas etapas, tudo tivesse acontecido há tanto tempo que parece um sonho muito distante e até meio desbotado.  Não sei se é por causa da tensão ou da intensidade das coisas, ou porque o tempo está passando rápido mesmo.  O que eu sei é que parece, p-a-r-e-c-e que os momentos mais críticos relacionados à hipospadia estão ficando menores.  Ainda falta mais uma cirurgia, talvez a última, no início ou no fim de dezembro e é aí que eu verei se todo esse processo terá chegado ao fim.

No momento, o que me resta é ficar feliz em ver Davi não somente saindo das fraldas como fazendo xixi normalmente.  Sei muito bem que a conta de água virá mais alta, afinal, esse negócio de dar 2 jatos de xixi e esvaziar uma caixa inteirinha de descarga é o maior barato para ele.  Mas não me importo, porque isso também vai passar e o que vai ficar serão somente essas histórias, porque até as lágrimas serão outras, de alegria e satisfação em ver meu filho vivendo normalmente.