Foco

"O que você quer ser quando crescer?" é uma frase muito comum na infância. As mais variadas respostas vão de "astronauta" ou "manicure" até a algum super herói e entre outras bastante hilárias.  O interessante é a certeza absoluta em definir, desde muito cedo, o que se quer para a vida.

Eu não me lembro muito de ter algum objetivo claro, bem específico quando criança.  Na verdade, a minha infância foi tão tumultuada que eu não me lembro de boa parte dela.  Alguns resquícios aqui, outros flashes ali, mas nada linear, sequencial. Da memória dos primeiros 5, 6 anos de vida sobraram apenas fragmentos muitos nebulosos.

Mas um dia eu quis ser bailarina.  Talvez movida pela oportunidade de ter ganhado uma bolsa de estudos numa academia de balé, meu "sonho" naquele período da vida era ser bailarina clássica.  Eu já tinha quase 10 anos e por volta dessa idade as coisas começam a ficar mais fáceis porque esse é um momento em que a criança está muito influenciável e às vezes traça um objetivo de vida que está de acordo com o que lhe é interessante naquele momento.  

Era o que acontecia comigo.  Eu queria ser bailarina porque, naquele momento, eu fazia balé.  Mas ser bailarina, negra, num Brasil de mais de 30 anos atrás era praticamente impossível. Na verdade, n-a-d-a era fácil naquela época, principalmente para quem era pobre como eu.  Quem viveu a época sabe que tudo era muito caro e difícil e os vários direitos que temos hoje não existiam - direito do consumidor, direito do idoso, direito da mulher, direito do adolescente, direito dos animais, direito das plantinhas, - nem de longe se pensava nisso.  Vivíamos meio que à mercê da vida-como-ela-deu-para-ser e a mobilidade social era quase inexistente.  Quem nascia pobre vivia ou estava condenado a morrer pobre.  Se fosse da classe média, assim também seria.  Só os ricos é que ficavam cada vez mais ricos.  Talvez a tábua de salvação era a educação escolar, mas a escola pública já caminhava para a decadência.  Me lembro que quando entrei no antigo Ginásio havia 4 turmas de 5ª série. Ao final, havia apenas 1 turma da 8ª série.

Um dia eu quis fazer Escola Técnica, aprender alguma coisa relacionada a eletricidade, eletrotécnica. Eu queria ser "técnica" em alguma coisa. Achava o máximo os alunos do CEFET com aqueles jalecos estudando nas salas-oficinas.  Tranquei o primeiro ano do 2º Grau e fiz um cursinho preparatório.  Saía de casa às 5h30 da manhã e ia até à Tijuca, pois as aulas começavam às 7h00.  Chegava em casa quase 14h00 da tarde, caindo de sono.  Fiz as provas e, claro, nem de longe passei, afinal, como lidar com a "Diabólica Trindade" formada pela Matemática, a Física e a Química? Perdi o ano no colégio, o cursinho e a vontade de ser técnica-em-alguma-coisa.  Não tinha - e ainda não tenho - a menor vocação para cálculos. 

Ao final do 2º Grau, mais um dilema:  que faculdade cursar? Engenharia, Arquitetura? Não. Ciências Exatas, nem pensar!  Direto? Administração? Hum... deve ter algum cálculo escondido no meio desses cursos. Biologia?  Como, se os cursos eram durante o dia e eu já trabalhava em tempo integral?  Medicina?  Ah, sem a menor chance, né. Como sempre tive facilidade com a Língua Portuguesa e Inglesa, então, por que não cursar Letras? Bingo! Foi o que fiz.  Assim foi a minha escolha, e  me formei não 1 mas duas vezes, porém, apesar de ter gostado muito do curso, eu não tinha muito claro se era aquilo mesmo que eu queria para a minha vida. O que eu sabia era que se eu parasse no Ensino Médio seria pouco provável que eu fosse ter vontade ou força para voltar um dia, já que trabalhar e estudar é uma tarefa bem cansativa e desgastante.

Mas de todas as coisas, o que mais me angustiava era ter que morar na favela.  Nunca gostei, não me adaptei e trabalhei duro para, primeiro, construir uma casa de alvenaria e, depois, vendê-la e me mudar. Não sei se era um objetivo, um foco efetivamente que eu tinha.  Um alvo.  O que eu queria era morar em outro lugar, fora dali. Depois de todos aqueles anos de tristezas, sofrimentos, agruras, inseguranças, dificuldades, enfim, foi quando eu comecei a sentir que estava vivendo o melhor momento da minha vida.  Me sentia livre, feliz, realizada.  Me sentia gente.

Mas depois, qual era o foco, para onde eu poderia direcionar minha atenção?  Voltar a estudar?  Seria ótimo, poderia ter feito uma pós-graduação, algo assim. Mas como eu já havia estudado tanto e por tanto tempo, eu estava cansada e... não tinha um foco muito esclarecido.  E então vivi uma vidinha simples, de trabalhar e curtir os momentos.  Só.

E outro dia, conversando com uma colega de trabalho, ela me pergunta pelo Davi e eu, mãe coruja no úrtimo, falo e falo e falo do moleque.  "Mas, Luciana, antes dele, qual era o teu foco?"  Uma pergunta simples, direta e... objetiva. Levei alguns segundos para responder, porque fiz uma retrospectiva rapidíssima na minha mente e descobri que, na verdade, eu nunca tive um foco.  Talvez por ter vivido tão ansiosa pelas coisas da vida, por ter trabalhado tanto para morar um pouco melhor ou... para sobreviver, apenas, eu não contemplava um alvo a ser alcançado num futuro médio.

E daí que eu concluí que foi a chegada do Davi na minha vida que me trouxe um foco, uma visão mais clara, mais objetiva e direta do que eu quero para a minha própria vida.  Ele é o meu foco, é por ele e para ele que eu me levanto todas as manhãs, que enfrento os desafios da vida e o principal deles: ser mãe.

Davi chegou para eu me descobrir - não me re-descobrir, porque a projeção de mim mesma era muito desfocada.  Ele tornou as coisas da minha vida mais claras.  Ele teve a capacidade de avivar a minha autoestima, além, claro, de alegrar meus dias, que eram nublados, turvos.

Davi não é meu objetivo momentâneo e sim, permanente e apesar da grande tentação comum à maioiria dos pais, eu me esforço em não colocar minhas expectativas nele.  Não quero que ele realize os meus sonhos, ou que alcance os objetivos que eu não alcancei.  Mas quero que ele tenha o foco que eu não tive.  Se ele vai ser astronauta, técnico-em-alguma-coisa ou um super-herói, eu não sei, porque essas coisas fazem parte do "risco" de se ter filhos, que é não poder prever absolutamente nada. 

Claro que eu espero que ele cresça e apareça, que se torne um ser humano bom, admirável, amado, aceitado, respeitado, porque não consigo acreditar que haja pai ou mãe que queira algo diferente disso para seus filhos.  Pode até existir gente assim, mas aí, não há como serem considerados pais, não é?

Hoje eu faço 44 anos de idade.  Não aparento tanto, pelo contrário, o tempo tem sido bem generoso comigo.  Mas estou me aproximando de meio século de vida (frase dramalhão-ultra-piegas).  Mas foi quando esse tal de Davi invadiu a minha vida, foi aí que ela, efetivamente, começou.  Foi aí que eu passei a ter um foco: ser a melhor mãe que eu puder ser.