Tédio, não tenho um programa! E nem 50 Novidades...





Alô!
Sabe esses dias
Em que horas dizem nada
E você nem troca o pijama
Preferia estar na cama
Um dia, a monotonia
Tomou conta de mim
É o tédio
Cortando os meus programas
Esperando o meu fim...

(Tédio, de Biquini Cavadão, 1986)

Quem era adolescente na época em que essa música tocava deve se lembrar das horas e horas de tédio que essa fase da vida traz.  Bom, pelo menos para mim, uma boa parte da adolescência foi um tédio só, já que eu não era adulta o suficiente para cair na balada (e, naquela época, não se podia m.e.s.m.o!), nem mais criança para brincar com coisinhas de criança. 

E aí o que sobrava era tempo demais, que deveria ter sido utilizado para aprender artesanato, canto, balé, algum esporte.  O que eu mais fazia, porém, além de ouvir muita música (graças a Deus) era ler, o que pelo menos é uma ótima atividade que se aprende a gostar desde muito cedo e que transforma o livro num aliado e companheiro por toda a vida.  Então, eu comia livros e livros, com exceção daqueles em que eu era forçada a ler para a escola.  Espera-se com naturalidade que esses dias e horas sejam tediosos, afinal, é o momento em que a formação da identidade está em pleno vapor e quando a gente quer tudo e não quer nada.  Mas, e quando o tédio é na infância?  

Sim, o tédio não é privilégio de adolescentes, ele está presente bem antes na vida das crianças.  O problema é que hoje em dia as crianças são praticamente proibidas de ficarem entediadas.  Afundadas num oceano de bens materiais e de atividades extracurriculares das mais variadas, elas simplesmente não têm tempo para achar tudo uma chatice só e, ao se verem de mãos vazias e tempo sobrando não sabem lidar com essa coisa estranha, esquisita, o tal do.... tédio. E para piorar ainda a situação, muitos pais (eu incluída, claro) acabam se sentindo culpados por verem seus filhos sem nada a fazer, afinal, infância é uma só e o tempo tem que ser aproveitado em cada segundo da respiração.  Então, toma-lhe brinquedos, de preferência aqueles que irão estimular a inteligência, a coordenação motora e turbirnar os neurônios da criança, como se estivéssemos condenados a criar futuros Einsteins para o mundo.

Esse assunto não é novidade nenhuma aqui e, por outro lado, não estou querendo justificar a minha incapacidade financeira para comprar tudo o que vejo pela frente para encher os potes do Davi de brinquedos dos mais variados.   Mas que criança precisa de tempo para fazer nada, sim, precisa, e essa e a melhor hora para ela criar, utilizar sua capacidade lúdica para se entreter, sozinha ou acompanhada.

Brinquedos e jogos eletrônicos ou didáticos têm seu valor, lugar e momento, mas o problema é que estamos supervalorizando essas coisas em detrimento de uma infância mais "à toa", digamos assim.  E o mais interessante é que esse comportamento parte de muitas pessoas que, assim como eu, foram crianças com poucos recursos financeiros para encher potes e mais potes de brinquedos e novidades e acabavam criando os mais variados tipos de brinquedos e brincadeiras, simplesmente pelo fato de terem tempo o suficiente para deixar a imaginação funcionar sem pressa, à vontade... à toa.

Se existe uma coisa que me deixa um pouco em pânico é "o dia da novidade" na escola.  Todas as segundas-feiras, as crianças devem levar alguma novidade e contar para seus coleguinhas do que se trata ou para que serve.  Bem aos moldes do "show and tell" americano, esse costume veio para cá e pegou muitos pais desprevenidos (como eu, por exemplo), pois nem sempre uma coisa que funciona numa cultura irá funcionar na outra. E aí, só de pensar que eu tenho que encontrar 50 novidades para Davi levar para a escola para cada uma das 50 segundas-feiras do ano eu já fico tonta.  De onde eu vou tirar tanta novidade? 

O mais interessante desses movimentos é que essa pressão de se ter uma novidade ou atividade a cada momento vem formando crianças.... entediadas!  Porque o tédio não é mais pela falta e sim, pelo excesso.  A falta da falta do que fazer tem levado muitas crianças, até, à depressão, e, vamos lá, quem da minha geração sofria de depressão, com uma rua inteirinha para jogar bola ou um quintal com árvores para se subir ou colher suas frutas, com pipas para fazer e empinar, bolas de gude, jogo de elástico, de pedrinhas, amarelinha, jogo do anel ou com comidas feitas com folhas, festas com brigadeiros e bolos feitos de lama?

Esta semana Davi não levou novidade.  Não me lembrei, não tive tempo e não tive... novidade para enviar para a escola.  Eu sei que o que é velho para ele pode ser uma bela novidade para os coleguinhas, mesmo que seja a mesma coisa.  Mas, não, não há condições de se viver em função disso ou de se ocupar qualquer espacinho de tempo com alguma coisa.  

Eu me sinto bem vendo Davi brincando sozinho em casa?  Não.  Sou da geração mãe-culpada, que quer que sua criança viva a infância como se não houvesse amanhã.  O problema é que o amanhã chega e, com ele, o tédio, e se a criança não souber lidar com o nada-a-fazer ainda na infância, corre o risco de ser um adulto... entediado.  E aí, qualquer novidade fica sem graça.