Você Tem Medo de Que?




Arthur Xexéo
escreveu há alguns dias a respeito de seus medos infantis, entre eles o da tão medonhenta "areia movediça", da III Guerra Mundial e do Papa da época dele.  Claro que uma mensagem como aquela refresca a memória da maioria dos leitores, a minha inclusive, trazendo de lá  do fundo do baú  alguns medos que acompanharam a infância  e que continuam na vida adulta

Eu não tenho muitos medos, pelo menos alguns "clássicos", como, medo de andar sozinha,  de barata, aranha, gato preto, sexta-feira 13, nunca tive medo da mulher loira do banheiro da escola, medo de dentista ou de tomar injeção. Mas confesso que tenho um pouco de medo do escuro, além da inexplicável fobia por répteis e derivados. Assim como Xexéo, também sofri com a iminente III Guerra Mundial (e o terrível telefone vermelho), que eu confundia com o Armagedon e com as pessoas que não iriam para o céu caso Jesus voltasse.

Tenho medo de trens e de metrô. Fico sempre atrás da faixa amarela, não por causa da regra, mas por medo mesmo. Fico imaginando aquelas máquinas enormes esmagando uma pessoa.  E assim também como Belchior, tenho medo de avião, apesar de nunca ter entrado em um. Tenho outros medos, mas é óbvio que não vou listá-los todos aqui porque não é esse o objetivo.

Entre tantos medos que se vão ou passam a existir em nossas vidas, descobri que o grande medo da maioria das mães é o de morrer. Mãe não pode morrer.  Nunca e nunca mais. Tem que viver para sempre, afinal, quem irá cuidar dos filhos? Se não pode, sequer, ficar doente, morrer não é nem a última coisa a acontecer na vida de uma mãe! É absurdo? Parece que sim, mas o mundo materno é cheio de coisas absurdas.

Não é uma questão de se tornar imortal ou heroína, pelo contrário, acho que é a vontade em querer presenciar todo o desenvolvimento da criança (que vai ser criança para sempre) e  estar sempre à disposição para eventuais acidentes de percurso. Mesmo que o natural seja os pais morrerem antes dos filhos, imagino que muitas mães queiram viver enquanto os filhos viverem. Talvez, lá pelos 90 ou 127 anos, algumas já tenham alcançado a consciência de dever cumprido, porém, imagino que se houvesse uma pílula do viver eterno este seria um recurso bastante utilizado pelas mães.  Eu sei que tem horas que dá vontade de matar a criança, mas isso é outro caso. Mãe  geralmente quer viver para sempre e não morrer nunca. Nunca para sempre!

Há também o medo de dizer NÃO à criança, que eu penso ser o resultado de algum princípio psicológico  pós-Woodstock que defende a ideia de que a criança pode, por si só, estabelecer os próprios limites, alguma bobagem assim. O que acontece, nesse caso, é um medo muito grande por parte dos pais de não serem aceitos, de serem rejeitados pelo filho, de não serem amados e gostados por ele. E daí, toma-lhe culpa, e toma-lhe atender aos caprichos mais sórdidos das crianças.

Medo de morrer e medo de não conseguir dizer NÃO de forma equilibrada fazem parte da vida de quem quer ver os filhos crescerem de forma saudável, física, moral e eticamente. Por enquanto, e já cedo, tenho percebido a inerente tendência do ser humano em não atender - ou não (querer) entender - o significado da palavra NÃO.


Espero que Davi não tenha medo nem de mim, nem de répteis (contanto que ele os mantenha bem longe de casa, claro).  Sei que ele ainda está muito novo para ter qualquer tipo de medo, pois não tem a menor noção de perigo, porém, eu tenho absoluta certeza de que ele entende direitinho o significado da palavra NÃO!


E já que eu não posso morrer, pelo menos nos próximos 90 ou 127 anos, vou me esforçar ao máximo para não economizar nem temer o uso dos NÃOS para aquele pedacinho de gente, mesmo constatando que dizer NÃO e dizer nada é a mesma coisa! Impressionante!



Ok, eu sei que esse foi mais um post piegas, além de ter ficado bem melado.  A maternidade às vezes é bem cafona, não é?

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