Síndrome de Complexo do Alemão


Esse blog nasceu num dia em que eu estava bem chateadinha só que, para não ficar choramingando aqui - afinal, ninguém tem culpa das coisas que se passam na vida de ninguém - eu resolvi fazê-lo de uma forma um pouco diferenciada do que existe pelo mundo virtual. A intenção não era tornar este espaço um muro de lamentações e insatisfações, muito menos ficar detalhando a "primeira-qualquer-coisa" feita pelo Davi.

Muitas das coisas que foram postadas se relacionavam a momentos que eu, por óbvio, não esperava que fosse passar, durante a gravidez e após o nascimento do Davi.  Ou seja, muito do que foi relatado é sobre as surpresas bem desagradáveis que tive nesses últimos 12 meses.

Os últimos dias têm sido "estranhamente" normais, ou seja, este mês Davi não foi a nenhum médico que não fosse apenas a Pediatra! Nas últimas semanas, Davi ganhou corpo, deu uma boa esticada, está indo para o 8º dente, engatinha  por toda a casa, já fica em pé.  Come bem, dorme bem, nada de febres ou tosses mais sofisticadas....tudo bom. Estranhamente bom e normal. Não tenho a menor inclinação para psicanálise, mas talvez eu esteja passando por uma espécie de "Síndrome de Complexo do Alemão".  Explico.

Como todo mundo sabe, o conjunto de favelas no Rio de Janeiro chamado Complexo do Alemão, assim como a Vila Cruzeiro, foram retomados pelas forças civis e militares na última semana.  Até então, nenhum outro governo havia ousado tal façanha e muitos "especialistas" consideravam o lugar inexpugnável.  Seus moradores, que viviam sob o jugo dos fuzis e dos abusos dos líderes do tráfico daquela região, passaram décadas de sofrimentos e humilhações que só agora poderemos conhecer. A rotina dessa gente era a violência e a violação da sua liberdade de ir e vir. O anormal era normal. 

A partir da retomada do território, os moradores da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, assim como outras várias comunidades que eram dominadas pelo tráfico, têm uma nova realidade para enfrentar: a normalidade. Viver sem o som de tiros, sem o anúncio de drogas na porta de casa, poder sair e entrar a qualquer hora do dia ou da noite sem se deparar com homens e mulheres portando revólveres e fuzis.  Muitos, claro, vêem essa nova situação com certa desconfiança, pois já vivenciaram essa realidade em outros tempos, porém, com um fim que remetia ao começo, ou seja, o Estado, através da polícia, entrava mas não ficava, e pouco tempo depois, a situação voltava a ser como antes.

É mais ou menos assim que ando me sentido ultimamente. Veja, isso não é uma reclamação, de jeito algum. Obviamente que, da mesma forma que os moradores daquelas comunidades não querem a volta da violência e daquela rotina anormal e torcem para que dessa vez  tudo mude para melhor e de forma definitiva, eu também não quero continuar a passar pelos sustos que passei com Davi. Por outro lado, assim como eles - os moradores - fica uma certa "desconfiança" dessa normalidade, visto que nós - eu e eles - estamos acostumados a uma rotina um tanto quanto atípica.

Talvez esse momento de calmaria sirva para compensar o próximo,  em que a cirurgia de hipospadia do Davi irá consumir bastante do emocional da família. Bem provável também que eu já esteja sofrendo por antecipação, não somente por ser uma característica minha, mas talvez também por ter me acostumado a viver nesse ritmo um pouco mais acelerado que a média.

Não sou do tipo que vê o copo meio cheio ou meio vazio. Para mim, o copo - no caso, o líquido - está no meio - do copo. Simples assim. Também não sou de ficar floreando as coisas, com a cabeça nas nuvens, o que não significa que eu viva sempre achando que tudo vai dar errado. Não é bem assim também. Só que, depois de ter passado todo esse primeiro ano do Davi correndo de um lado para o outro, com diagnósticos dos mais variados, desde a presença das hérnias até uma provável espinha bífida, confesso que ainda me causa estranhamento essa brisa toda.

Não sou - ou não quero ser - pessimista. Tenho tentado viver esse período da melhor forma possível, e talvez demore um pouco para eu me acostumar a lidar com a normalidade dos probleminhas típicos de criança em desenvolvimento.
 
Mas que ainda existe a impressão de que, a qualquer momento, haverá uma enorme troca de tiros, e tudo vai voltar a ser o que foi no início, ah, existe!