Whitney


Era o começo dos anos 1990, com muito cabelo frisado - o famoso "permanente afro" -, muito scarpin branco, batons ultravermelhos e as malditas ombreiras. Final da adolescência, eu curtia ainda muito U2, Madonna, Queen, The Cure, Simple Minds e Paralamas, além dos já famosos cantores do R&B americanos: Barry White, Diana Ross, Marvin Gaye, James Ingram e Michael Jackson, entre outros.


Mas não me dei conta do aparecimento de Whitney Houston e quando isso aconteceu, não dei muita bola.  Do alto do meu afinadíssimo conhecimento musical (só que ao contrário), achava que ela gritava muito.  Não me atentei para sua performance, para sua capacidade de "brincar" com a voz que tinha.  E quando meus ouvidos se abriram para sua voz, tentei recuperar  o tempo perdido em não admirar seu talento e seu trabalho. Ainda bem que consegui.


Uma vez, minha mãe disse: os cantores, quando morressem, bem que poderiam deixar a voz, passá-la para outra pessoa.  Mas cantar, cantar mesmo, ser uma Whitney, uma Elis Regina, uma Aretha, um Sinatra, não é para qualquer um, todo mundo sabe.  Cantar não é um privilégio, uma técnica, um conhecimento musical.


Cantar é um dom.  E dons vêm de Deus, que os distribui de uma forma misteriosa, pois contempla pessoas tão imperfeitas quanto eu, que não canto nem no chuveiro.  Mas essas pessoas são tão divinamente dotadas que são únicas, não há backup, sobressalente, substituição.  E quando se vão, o vazio que deixam não é preenchido nunca amais.


Às vezes esses talentos não se dão conta da dádiva recebida, nem percebem que passam a fazer parte da história de muita gente, e eu sei que Whitney fez parte de muitas histórias, até mesmo da minha.  De maneira tímida, mas ela esteve lá, com sua voz, seu talento, sua dádiva.
Não fui grande fã de Whitney, mas vou sentir muito a sua falta, porque não haverá outra Whitney Houston.


Que ela descanse nos braços do Senhor.