Eu Só Quero é Ser Feliz...Parte 1


 


Alguém se lembra de um rap chamado Rap da Felicidade?  O refrão dizia:


Eu só quero é ser feliz,
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, han.
E poder me orgulhar,
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar.


Hoje a gente sabe que o rap deu lugar ao funk que,  numa definição perfeita, significa: filme pornô para cego.  Mas este post, que vai ser grande, não é sobre funk, é sobre o lugar onde se mora e onde a gente tenta ser feliz.

Como eu já cantei em verso e prosa por aqui, moro na zona oeste do Rio de Janeiro, num bairro chamado Campinho.  Apesar de estar muito próximo ao bairro de Madureira (zona norte), Campinho, Vila Valqueire e Barra da Tijuca, por exemplo, pertencem à zona oeste, uma parte da freguesia de Jacarépagua, ou seja, não são bairros "suburbanos".  E como em todos-os-lugares-no-mundo-inteiro, fazer a marcação geográfica de onde se mora é de extrema necessidade para muita gente.  

Campinho não é subúrbio mas também não é tão zona oeste quanto a Barra da Tijuca, que acha que é zona sul. Da mesma forma, Campinho não é Tijuca, que também acha que é zona sul, mas é zona norte, ou seja, subúrbio. Portanto, Campinho está a um passo de ser zona norte e a muitas léguas de ser zona sul, a área mais nobre e almejada por uma boa porção de cariocas, com seus calçadões à beira mar e onde se pode facilmente encontrar alguma celebridade televisiva levando seu cãozinho para tomar sol, fazendo compras e ingnorando falsamente algum paparazzi.

Até mesmo dentro da própria zona geográfica, o bairrismo é evidente: quem mora em Ipanema, nem que seja no Arpoador (divisão entre esse bairro e Copacabana) já olha o "copacabanense" de outra forma, afinal, Ipanema é berço da Garota de Ipanema, da Banda de Ipanema, da Praia de Ipanema, de um dos metros quadrados mais caros do mundo.  Já Copacabana é a Ipanema de antigamente. Botafogo e Flamengo ainda são vistos com bons olhos, mas Catete e Glória já são considerados bairros mais decadentes. Assim também é na zona oeste: muita gente que mora na Freguesia diz que mora na Barra da Tijuca, e alguns que moram na Taquara ou no Tanque dizem que moram na Freguesia. E quem mora em Padre Miguel, Realengo, Paciência, Santa Cruz, Campo Grande mora é longe mesmo. É uma coisa. 

Conheço pessoas que moram bem, tanto na zona sul quanto na zona norte ou mesmo na Baixada Fluminense (que já é um caso à parte!).  E conheço quem mora muito mal, mas é na zona sul, e não sai dali para morar melhor de jeito nenhum, afinal, morar nessa área super nobre é o must, mesmo que isso signifique ter que dividir o mesmo espaço com favelas enormes, como Pavão-Pavãozinho, Cantagalo, Babilônia, Rocinha, Tabajaras, mas se é zona sul, perto da praia e das celebridades televisivas, isso é o que vale. Não sei se são felizes, mas se esforçam para manter a pose, a qualquer custo, mesmo que seja numa cabeça-de porco.

Eu morei por muitos anos na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, mas era numa favela, e mesmo não sendo uma cabeça-de-porco, era um lugar sofrível. Nem por isso deixava de desdenhar de quem morava "prá lá prá cima", ainda mais se fosse na Baixada Fluminense (que é um caso à parte!). Jacarépaguá? Manempensar! Lugar longe, quente, cheio de suburbanos. Eu morava na zona sul, perto da praia e das celebridades e seus cachorrinhos.  Mas não era feliz.  Isso não significa que todo mundo que mora em favela não seja feliz.  Também conheço gente que não troca de lugar, não quer sair da favela onde mora porque é feliz assim, até porque hoje em dia o que não faltam são casas enormes com vistas para o mar.  Nas favelas. E tem aquelas pessoas que, mesmo em condições financeiras para morar na zona sul, e ainda que saiam do lugar onde viveram quase a vida toda, têm orgulho de suas raízes, como Zeca Pagodinho e sua  amada Xerém, que fica na Baixada Fluminense (que é um caso à parte!). 

Todo mundo tem uma dose de bairrismo dentro de si, mesmo que pequena. Por mais caído que o seu bairro seja, a pessoa irá defendê-lo.  Claro, há exceções.  Pergunte a quem tem que pegar um Japeri-Central às 5 da manhã se não gostaria de ir morar na Barra da Tijuca (porque Ipanema já é demais, né)? Não, não sou tão ingênua assim, porque existem lugares, bairros, áreas em que as pessoas sofrem com tudo.  Ou, pior, com a ausência de tudo: transporte, lazer, segurança, água, luz, hospitais.  É uma coisa.  E tem outro detalhe: apesar do nome, bairrismo também serve para cidade, estado e país! É uma coisa mesmo.

Claro que, como falei acima, é na zona sul DAQUI que encontramos mais facilidades: os melhores shoppings e lojas descoladas, supermercados, museus, teatros, cinemas, restaurantes sofisticados e pseudo-botecos, eventos culturais e sociais, áreas de lazer, parques. E as praias, que são o ponto alto de tudo isso. Porque muitos da classe intelectual e formadora de opinião moram na zona sul, então, nada mais "normal" do que se voltar as atenções e os investimentos para essa área urbana.  Enquanto isso, os subúrbios - e aí tanto faz que seja a zona norte ou oeste - padecem pela falta de atrativos para seus moradores.  Com exceção das escolas de samba, que  na maioria das vezes só recebem a elite-zona-sul no período do carnaval, essas áreas da cidade quase nunca são lembradas, principalmente por quem governa.  E olha que eu nem citei a Baixada Fluminense, que é um caso à parte?

Parque Madureira - 2012




Imagem do topo da página: Detalhe do mapa "Planta da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro com suas fortificaçoes" de João Messé, 1713, mostrando a muralha do Rio de Janeiro, do Morro do Castelo ao Morro da Conceição. Fonte: http://serqueira.com.br/mapas/muro1.htm