Sobre Babás, Uniformes e Preconceitos

Que a escravidão é uma página vergonhosa da história do Brasil muita gente já sabe.  Nosso país foi um dos últimos na América Latina a  libertar seus escravos e o fez da maneira mais mal feita possível, ao negar a essa gente um pedaço de terra e uma oportunidade de recomeçar de forma digna.  Na verdade, o que temos é um processo de libertação lento e gradual dos escravos negros e seus descententes, que se reflete, com algumas exceções, na sua ausência nos postos mais altos do país.  Somente no século XXI, por exemplo, é que o país passou a ter um negro na mais alta corte da Justiça - o Ministro Joaquim Barbosa, no STF.


Não estou aqui para fazer qualquer tipo de discurso ou estudo sócio-antropológico sobre o assunto escravidão e que tais por ser um tema muito vasto e que levaria algum tempo para pesquisas, coisa que eu não tenho.  Mas o que me moveu a escrever este post foi o bafón do momento, que é a proibição de acesso às babás não uniformizadas por parte de alguns clubes sociais - mais informações, aqui.

A maioria das pessoas, principalmente algumas ONG's - Educafro, por exemplo - alegam preconceito racial e social o fato de alguns clubes sociais impedirem o acesso a babás que não estejam devidamente uniformizadas. Na sua opinião, o uso do uniforme serve para estabelecer publicamente a divisão sócio econômica entre patroa e empregada.  Algumas babás, por sua vez, reclamam que sofrem preconceito por causa do uso E do não uso do uniforme.  Outras dizem que as crianças das quais cuidam sequer as chamam pelo nome;  usam apenas o termo "babá".  Surge também um movimento de repúdio ao uso do uniforme de babá.  E tudo foi parar no Ministério Público.

Semana passada, a OIT - Organização Internacional do Trabalho - classificou o Brasil como o país onde mais existem empregados domésticos (aqui). Assim como as empregadas domésticas, as babás  também  foram, por muito tempo, consideradas como mucamas de suas patroas, com poucos direitos e muitos deveres.  Com a mudança da estrutura familiar, em que as mulheres tiveram que sair de casa para trabalhar, ficou cada vez mais difícil encontrar uma "boa" empregada e principalmente uma "boa" babá.  Por conseguinte, essa mão de obra tomou nova roupagem, com cursos profissionalizantes e de especialização e até sindicatos.  Ser empregada doméstica ou babá nos dias de hoje não é mais um subemprego, é profissão.  Contratar a mão de obra desse profissional é para poucos, pois ela é cada vez mais valorizada, rara e cara.

Não vejo como preconceito racial ou social o uso de uniformes nas babás.  No caso do preconceito racial, o argumento não se justifica pois existem babás não negras.  No caso do aspecto social, nem toda a babá pertence a uma classe social menos favorecida, pelo contrário, hoje em dia existem babás graduadas e pós graduadas e que percebem um salário bastante elevado.   Se uma enfermeira, um médico, um guarda municipal, uma recepcionista, um motorista particular usam uniforme, qual o problema no uniforme da babá?  Pois no caso dos clubes privativos, a questão - pelo que eu entendi - é a proibição do acesso a babás SEM uniformes e não às babás em si!  Se fosse esse último o caso, aí sim eu creio que seria considerado preconceito.

Com uniforme ou não, a distinção entre a babá e a patroa acontece da mesma forma simplesmente porque ela é tão clara quanto a luz do sol!  Por outro lado, o uso do uniforme sinaliza que aquela pessoa é responsável por determinada criança e, portanto, não há possibilidade de ser confundida com outra pessoa qualquer.  Chega a ser até uma questão de segurança, pois quem se aproximar da criança sem uniforme certamente é alguém que não é responsável por ela.  Pode até ser amigo ou parente mas, como saber, já que a pessoa está "à paisana"?  Além disso, o uso do uniforme não deixa de ser uma forma de economia para a babá, já que ela não terá a necessidade de usar suas próprias roupas para trabalhar.

O problema, contudo, é a questão do tratamento pessoal entre patrões e babás.  Os ecos da escravidão ainda deixam rastros na maneira de muitas pessoas se relacionarem com seus empregados, de forma a tratá-los, ainda, como meros serviçais, o que reflete naquele caso da babá que reclama que a criança nem a chama pelo seu nome, apenas usa o termo "babá", talvez como forma de despersonalizar a profissional e de aplicar um tratamento impessoal que sirva para reforçar ainda mais a distinção sócio econômica entre patroa e babá.

Não acredito em preconceito de raça, visto que a miscigenação das raças formou uma nação de pessoas das mais variadas tonalidades de pele.  São poucos os brasileiros que podem dizer que são 100% "puros" em relação a alguma raça.  O que se tem, a meu ver, é preconceito de cor, pois alguém que tem pais negros e nasce mais claro pode ser mais socialmente aceitável do que aquele que tem a pele mais escura.  Por outro lado, ainda existe, sim, o preconceito social, em que a pessoa é tratada de acordo com o seu poder aquisitivo.  Mas essa não é uma prerrogativa do Brasil, pois se manifesta em praticamente todas as sociedades.

Na minha adolescência eu fui empregada doméstica e babá por algum tempo e trabalhava basicamente nos fins de semana - a chamada baby sitter.  Eu não usava uniforme e nem por isso deixei de ser tratada como apenas uma serviçal ou de receber olhares enviezados por causa da minha cor. Apesar de não usar uniforme, ainda assim eu tinha que usar o elevador de serviço, portanto, não é o uniforme em si que causa o tratamento diferenciado e sim a maneira como as pessoas percebem as outras.  Talvez o uniforme apenas reforce o preconceito, que já está incutido na pessoa.

Ainda bem que a vida nos dá oportunidade de nos tornarmos pessoas melhores para que nossos filhos também se tornem pessoas melhores.  Assim, podemos formar cidadãos respeitados e respeitadores, independente do que vestem e do quanto de valor monetário existe em sua carteira.  Aí, um uniforme e uma conta bancária serão apenas detalhes.  Não é preciso tratar a empregada ou a babá  "como-se-fosse-da-família", pois profissionalismo existe para todas as situações.  Mas respeitar as pessoas independente de cor, de sexo, de posição sócio econômica ou acadêmica é uma opção de valor de vida, nada mais.