A Ameaça

Eu não tenho o hábito de falar palavrões, nunca tive.  Não porque eu seja uma menina boazinha, mas sempre fui muito comportada, mais para agradar e ser aceita do que para mostrar minha educação.  Além disso, sou da época em que a criança que falasse um palavrão ou levava um tapa ou sofria com uma pimenta na boca. Isso não significa que de vez em quando eu não solte alguma "pérola", porém, no geral, eu não tenho mesmo esse hábito.

Na hora da ira eu solto uma coisa ou outra e em pensamento alguns vêm com muita força mas, no geral, não sou o que se costuma chamar de boca suja. Mas quando, num momento de cabeça quente eu falei "cacete" e Davi repetiu "catete", aí mesmo é que eu comecei a me policiar, porque senão o negócio ia ficar muito feio.

Acho feio usar palavrões para se comunicar, mesmo que a única expressão para um momento seja um "belo" palavrão que se encaixa perfeitamente nele e que expressa o sentimento na situação.   Trabalhei  com um rapaz que em 10 palavras que soltava, 11 eram palavrões, que saíam com tanta naturalidade que com o tempo me incomodavam menos.  E se eu acho feio gente adulta falando palavrão, quando ouço uma criança usando termos chulos eu tenho vontade de enfiar minha cabeça num buraco e morrer.

Uma pesquisa de 2010 mostrou que as crianças de hoje em dia falam muito mais palavrões do que as de outras épocas e a razão principal é a influência de seus pais boca suja.  E nos tempos atuais, não adianta mais aquela máxima que dizia "faça o que eu mando mas não faça o que eu faço", pois esse modelo autoritário mudou para um mais flexível, onde o diálogo vem em primeiro lugar.  Hoje, a criança continua a ser observadora de seu meio mas tem  muito mais liberdade para expressar seus sentimentos e percepções.  Acredito que sejam poucos os casos em que crianças que soltam um palavrão levam um tapa ou têm que mastigar uma pimenta como forma de limpar sua boca suja.

Às vezes o movimento não é de dentro para fora de casa e sim o contrário.  Quando um filho chega em casa e faz ou fala alguma coisa que a gente sabe que não foi em casa que ela aprendeu e sim com os coleguinhas, o sangue gela e temos que conversar e corrigir imediatamente.  Como Davi e seus coleguinhas de escola ainda são bem pequenos, percebo a ausência do uso de palavrões em sua fala, graças a Deus.  Se acaso aconteça, creio que seja mais uma questão de repetição do que de noção do que se está falando, já que ele, por óbvio,  não tem muita ideia daquilo que repete. Porém, nesse momento "esponja" em que ele se encontra, tudo é absorvido e fica guardadinho lá na memória, sendo formatado para um uso no futuro.

Quase todos os dias em que chega da creche, Davi reclama que levou um tapa ou um empurrão de algum coleguinha, e sabendo que ele não é nenhum santinho pergunto o que ele fez e ele responde: eu bati também.  Até aí, não vejo nada de anormal, já que crianças que convivem diariamente umas com as outras se estapeiam e voltam a brincar como se nada tivesse acontecido.  Não sou o tipo de mãe que fica na porta da creche preparada para fazer um "barraco" todas as vezes que meu filho reclama de algum coleguinha.  Além de ter mais o que fazer, eu dou liberdade para que a escola o discipline dentro daquilo que eu acho que é certo e justo.   Portanto, por mais neura que eu seja, eu encaro esse tipo de comportamento como o mais natural possível, a menos que um dia Davi chegue em casa com algum machucado sério causado por uma briga feia, coisa que ainda está um pouco fora da sua idade e da idade de seus coleguinhas.  Um dia, porém, ao chegar em casa, Davi me solta a seguinte "pérola":

- O Fulaninho me bateu. (Até aí, normal, já que ele também bate e depois todo mundo se ama no final).


- Eu vou MATAR o Fulaninho!
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- Oi?

Claro, não chegou a ser um palavrão, mas o uso do termo "matar" realmente me assutou um pouco (um pouco?).  Como minha cabeça começou a inchar e mesmo sabendo que isso nada mais era do que a repetição de alguma coisa que alguma criança falou - ou que Davi tenha ouvido em algum lugar, como um programa de TV, por exemplo- , não deixei de ir falar com a responsável pela creche, que me disse que, sim, isso é natural para a idade, pois as crianças repetem o que ouvem e etc, etc, etc, etc....


Ok, porém a expressão "vou matar" está, por ora, devidamente bloqueada em casa, porque não quero que Davi fique repetindo uma coisa que ele não sabe o real significado, mas que, para mim, é quase como um palavrão.  Claro também que não vou bater na boquinha dele, muito menos colocá-lo para mastigar pimenta, não somente porque eu sou neura mas não sou louca, mas também porque, como já coloquei, ele não tem a menor noção do que significa a expressão "vou matar".


Eu sei que vai chegar um momento em que eu não poderei evitar que ele aprenda ou fale algum palavrão, já que ele convive com crianças que refletem os mais diversos comportamentos familiares.  Não tenho a ilusão de achar que, assim como eu, Davi não será um boca suja.  Obviamente que irei me esforçar a ensiná-lo que usar palavrões não é a maneira mais educada e gentil para se comunicar, mas sei que ele não ficará imune a isso e a tantas outras (más) influências. 

Alguém pode até dizer que falar palavrão, diante de tantos outros valores, não é tão nocivo assim.  Eu não concordo, pois considero que a nossa linguagem é reflexo da educação que recebemos.  Não é uma questão de "falar bonito", mas sim de gentileza e de.... educação mesmo!  As palavras  e até mesmo os palavrões usados dentro de um determinado contexto carregam signifcados próprios, porém, na maioria das situações as expressões chulas são totalmente dispensáveis.

Por enquanto, o que me resta é tentar demover Davi da ideia de aniquilar seu amiguinho, um dos melhores que ele tem na escola (na verdade, é um trio: Davi e mais 2 malandrinhos que tocam fogo na creche).  Não precisam se beijar e abraçar o dia inteiro, podem até se estapear, o que acontece de fato todos os dias.   Mas sem derramamento de sangue, por favor!