Lágrimas


Por várias vezes ouvi de muitas mães o quanto elas já choraram - e algumas que ainda choram - quando deixam sua criança na creche, levadas por um misto de sentimentos, em que a culpa é o maior deles.  Entregar sua criança  nas mãos de uma "desconhecida", ter que ficar longe da criança por conta do trabalho, ouvir  seu choro na hora da separação são razões suficientes para chorar nesse momento.

Eu nunca chorei. Todas as vezes em que entreguei Davi na creche eu não chorei.  No começo fiquei, sim, com o coração um pouco apertado, mas nada que durasse mais de 5 minutos.  Uma tia me perguntou, uma vez, se eu não ficava triste ou chorava nessas situações. Diante da negativa, ela arregalou os olhos e soltou um enorme e indignado "creeeeeedo"! A avó do Davi diz que sempre chora quando ele entra na creche,  não importa se ele chore ou não.

Outra situação, talvez a mais sublime, que leva as mães às lágrimas, é quando a criança nasce. Não faltam registros desse momento tão marcante e naquela foto lendária com a mãe, a criança e o pai, que é tirada ainda dentro do centro cirúrgico, geralmente a mãe está com lágrimas nos olhos. Às vezes, o pai também.

Mas quando o Davi nasceu e eu ouvi seu breve choro, eu não chorei. Eu até senti meus olhos lacrimejando um pouquinho, mas nada tão robusto a ponto de se transformar em rios de lágrimas. Na tal foto lendária, estou sorrindo, mas sem choro.

No dia em que Davi foi operado pela primeira vez, no momento em que o anestesista o pegou do meu colo e o levou para o centro cirúrgico, eu não chorei. Fiquei olhando para ele, estática, e por um tempo ouvi seu choro, que foi bem curto, acho que por conta da anestesia.  Do lado de fora, havia outras pessoas que também aguardavam suas crianças que se encontravam ou em operação ou em algum exame. Algumas dessas pessoas também choravam, outras, como eu, não. Quando recebi Davi nos meus braços e o levamos para casa, e também nos dias que se seguiram, eu não chorei.

O posto de vacinação também é um lugar de muias lágrimas. De crianças e de mães, talvez muito mais por parte dessas últimas até. Muitas dizem que viram o rosto cheio de lágrimas quando a criança está sendo espetada, pois não suportam essa cena tão medonha, cheia de gritos de dor e de lágrimas. Me lembro da primeira vez em que levei Davi no posto para ser vacinado.  Havia uma outra mãe que já sofria do lado de fora do ambulatório, aguardando aflita e ansiosa sua vez de entrar. Entramos juntas e sentamos uma ao lado da outra.  Ela, com o rosto virado e chorando; eu, olhando tudo beeeem de perto, e sem lágrimas. Sim, porque nessas horas eu abro bem meus olhos para a injeção, nem pisco, quase não respiro, porque quero ver mesmo o que e como a enfermeira está fazendo. Não sei porquê, mas sempre me passa a ideia da agulha quebrar naquele exato momento!

Eu já chorei muito, principalmente no primeiro ano de vida dele, quando tudo era novo e as coisas não estavam muito bem. Porém, desde o momento em que eu percebo que a situação é para o bem dele, eu realmente não consigo chorar, por mais lágrimas essa situação possa trazer, porque vejo que ele é uma criança privilegiada. Eu sei que haverá momentos que me levarão às lágrimas, afinal, eu não sou esse monstro todo.  Pode parecer que eu seja meio fria e muito mais racional que emocional, mas dentro-do-meu-peito-também-bate-um coração!

Por hora, eu só tenho vontade de chorar quando Davi está de mal comigo, quando ele se recusa a vir no meu colo ou vira o rosto quando eu tento beijá-lo. Ou seja, quando ele fica de beicinho, fazendo birra e  me deixando de lado. Aí, sim, eu quase vou às lágrimas.