Os Sobreviventes

A partir de 2012 será proibida a comercialização de mamadeiras plásticas que contenham a substância bisfenol (ou BPA) em sua composição.  Só agora essa medida chega às terras brasileiras, mas o BPA "também foi proibido em alguns países da União Europeia, Canadá, China, Malásia, Costa Rica e 11 Estados americanos."

Sinceramente, confesso que, até então não me havia atentado para esse detalhe na compra de mamadeiras para o Davi. Diante disso, o que me restou foi um enorme sentimento de incompetência, visto que outras mães já tinham ouvido falar desse novo fantasma que, entre outros estragos, "...simula no organismo a ação do hormônio estrogênio, podendo causar desequilíbrio no sistema endócrino."  Meu Deus, onde eu estava até agora???

Apesar de existirem mamadeiras sem BPA, já sinto um movimento de volta às mamadeiras de vidro, que realmente estão acima do bem e do mal, porém, com preço médio R$ 45,00. Cada-uma, ok? E se considerarmos que a quantidade razoável de mamadeiras gira em torno de 8 a 10, então, façam as contas. Claro que a iniciativa de se pesquisar e retirar o que é prejudicial à saúde é sempre bem vinda, mas eu me pergunto: como conseguimos sobreviver às coisas que hoje não são mais usadas, ou porque foram substituídas por outras praticidades ou porque se tornaram inimigas-número-um de nossas criancinhas?

Alguém se lembra das fraldas de pano, que eram utilizadas com as "calças-plásticas"? Com o advento das fraldas descartáveis, tão práticas e (agora) poluentes, as fraldas de pano foram demonizadas por causarem tantas assaduras e acabaram caindo em desuso em muitos lugares. Mas não é que agora elas estão voltando com toda a força e majestade? Claro, dessa vez super estilosas e sem as calças-plásticas! Ah, sim, o preço? Uns R$ 15,00 ca-da-uma, ok? Sim, porque geralmente aquilo que caiu em desuso e ressurge mais estiloso, vem sempre mais caro, vide as mamadeiras de vidro, por exemplo. Uma coisa meio vintage, entende?

Para prender as fraldas de pano, era necessário o uso de alfinetes, lembram? Como as crianças de outros tempos conseguiram sobreviver sem que sua barriginha fosse furada por um alfinete assassino usado para prender as fraldas-de-pano-com-calças-plásticas? Sim, por certo que houve, em algum momento, uma espetadinha aqui ou ali, mas a criança corria risco de o alfinete se abrir sem ser percebido e machucá-la seriamente.

Como é que as crianças não morreram asfixiadas com o talco? Pois o uso do talco para o tratamento de assaduras era muito comum, porém, com o perigo de asfixia, também foi abolido, abrindo caminho para as pomadas das mais variadas. Sem falar que, antes do surgimento do talco, tão cheirosinho, era muito comum o uso do bom e velho amido de milho no bumbum e no corpo das crianças.

E o umbigueiro? Sim, aquele pedaço kilométrico de pano que envolvia a cintura da criança a fim de proteger e apertar o umbigo, de forma que ele não fosse contaminado e que também não estufasse e se tornasse uma  enorme hérnia, que mais parecia um caroço ou um botão no meio da barriga? Além disso, a criança só poderia tomar um banho inteiro somente depois que o umbigo caísse. Umbigo "bem curado" era prova de aquela mãe era muito competente e cuidadosa, sabia?

Hoje em dia ainda há controvérsias a respeito da maneira de se colocar a criança para dormir, a fim de que ela não tenha morte súbita ou que engasgue: de lado ou de barriga para cima? Berço inclinado ou não? Com ou sem travesseiro? E quando não havia essas informações, como sobreviveram?

Indo um pouco mais para trás da História, imagine a época em que as pessoas não tinham o hábito de tomar banho diariamente e, sim, semanalmente"Primeiro entrava o chefe da família, seguido dos homens, por idade, a seguir as mulheres, também por idade,e por último, caso houvesse, os bebês." Daí aquela expressão que diz "não jogue a criança junto com a água".
 
E houve uma época em que as mamadeiras de vidro também foram deixadas de lado.  Com a descoberta  e o desenvolvimento da moldagem do poliestireno, os itens plásticos se tornaram comuns em todos os lares. Uma geração de crianças foi alimentada por mamadeiras plásticas, que continham uma substância chamada bisfenol (ou BPA) em sua composição, que depois descobriu-se ser causadora de uma miríade de estragos,  como, por exemplo, simular no organismo a ação do hormônio estrogênio, o que pode causar desequilíbrio no sistema endóc... êpa! Mas essa não era a introdução deste post?

Esses são alguns exemplos que me vieram à mente, mas é certo que havia tantos outros métodos de cuidados que hoje são até escandalosos às mães modernas e super antenadas com o que há de mais novo nesse sentido.  Mas, por mais óbvio que pareça, muita gente sobreviveu. Inclusive muitas daquelas crianças que eram as últimas no banho semanal da família.

A modernidade nos trouxe descobertas que ajudaram e muito a diminuir a mortalidade infantil e o desenvolvimento de doenças nas crianças. Acredito que a geração de Davi é muito privilegiada, pois está servida dos mais avançados estudos, métodos, tratamentos e medicações que existem mundo afora. Porém, como bem diz minha amiga Laura Lyz, os ignorantes é que são felizes, e talvez por isso muita coisa tenha dado certo, quando tinha tudo para dar errado.