Há de se ter Coragem


Não sou da "geração Xuxa".  Por mais incrível que pareça, nunca assisti àqueles programas infantis que passaram nos anos 80 e 90 (Xou da Xuxa, Planeta Xuxa, enfim).  Apesar de ter querido um par de botas brancas, que deixavam as pernas com aparência de engessadas, nunca tive paciência com aquele tatibitati dela e ainda hoje sua voz me irrita bastante.  A minha impressão - e eu tenho certeza que é a de muita gente também - era a de que Xuxa havia se prendido àquele estereótipo,  que era uma mistura de menininha com tia da escola, pois seu comportamento meio imaturo muitas vezes se refletia nas suas falas e crenças, como seu esquisito relacionamento com duendes, por exemplo. Mas, cada um é cada um e a gente gosta de quem quer.

Nem por isso fiquei indiferente ao depoimento dado por ela no Fantástico, no último domingo, em que revelou ter sofrido abusos na sua infância e pré adolescência.  Não acredito que Xuxa tenha mentido, já que não lhe faltam fama, sucesso e dinheiro - motivos para atrair os holofotes da mídia - portanto, creio que o seu depoimento tenha sido verdadeiro e talvez doloroso.  Mas cheio de coragem.

A violência sexual, diferentemente da violência física, deixa marcas na alma e, e se a alma não for tratada e curada, fica latente por toda a vida.  Não que as agressões físicas e verbais sejam menores, mas me parece que o ultraje ao corpo ainda em formação, muitas vezes feito por algum familiar ou conhedido da família faça alguns estragos bem medonhos na vítima.

Na minha opinião, já que não tive a infelicidade dessa experiência, imagino que querer falar, denunciar e não ter o crédito de quem deveria ser o ponto de apoio - no caso, os pais - traga uma dor terrível para quem sofre abuso sexual.  Imagino que seja como gritar de desespero e não ser ouvido e o que não faltam são casos assim, em que a criança é abusada e ao tomar coragem para contar para seus pais ou responsáveis o que recebe é o descrédito de suas palavras - em alguns casos algumas até são punidas.  Ou, talvez, ainda pior: quando a mãe SABE e não toma nenhuma iniciativa, pelo contrário, às vezes se volta contra o próprio filho, tornando-se tão criminosa quanto o próprio criminoso.  Não, eu não consigo entender esse comportamento e não faço a menor ideia do que é passar por isso.

O que faz com que a impunidade tenha espaço é exatamente a omissão, mas não podemos nos esquecer que, assim como aconteceu com a Xuxa, muitas crianças simplesmente não conseguem ter coragem para denunciar seus agressores, ou por que são ameaçadas por eles ou porque não encontram nos seus pais o conforto da segurança para tomarem essa atitude, muitas vezes por puro medo de suas reações.

Ninguém está imune a essas coisas, porém, eu acredito que a coragem tem que partir de nós, pais, para proteger nossos filhos e fazer com que eles vejam em nós pessoas em quem podem confiar totalmente.  E que nós, pais, não tenhamos medo de defender nossas crianças, mesmo nessas situações tão absurdas, que às vezes envolvem rompimentos familiares definitivos. Mas a nossa coragem será a coragem deles.

Parabenizo a Xuxa pela coragem em se expor a esse nível e que esse gesto não seja em vão, mas que injete também coragem nos pais e mães em situações como essas.

Disque 100 Nacional, contra abusos infantis, de qualquer espécie.