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Sobre o Mito e a Realidade

mito
[Do gr. m~thos, ‘fábula’, pelo lat. mythu.]

3. Representação de fatos ou personagens reais, exagerada pela imaginação popular, pela tradição, etc.
8. Coisa inacreditável, fantasiosa, irreal; utopia:


Falar não é fácil, imaginar, então, é mais difícil ainda.  Mas, sim, nem todas as mães são iguais e, portanto, no dia da hoje, em que se comemora a existência delas, há outras várias pessoas, adultos, velhos e crianças que não têm o que comemorar, e não é porque são órfãos de mãe.  São órfãos de maternidade.

A nossa cultura latina endeusa a figura materna, remetendo-a diretamente ao nível de santidade, talvez por influência do catolicismo romano, em que boa parte das santas católicas são mães e representam  a mais importante de todas: Maria, a Mãe de Jesus. A maior ofensa que se pode dar e receber é xingar a mãe, porque essa mulher, a partir da equivocada ideia de que gerou a vida, torna-se praticamente imaculada.  Mas não é assim.

Sabemos que há pessoas que não são mães biológicas mas são maternais e também há mulheres que são mães, porém, são destituídas de maternidade.  Portanto, colocar um ser humano no mundo não faz surgir a maternidade automaticamente, porque ela não é produto do corpo.  A maternidade vem do coração, não o físico, mas o emocional.  E espiritual também.

Sim, existem mães frustradas e incapazes de transmitir o mínimo de afeto aos seus filhos e assumir essa realidade é, para muita gente, uma questão principalmente de vergonha, porque, como falei acima, a figura materna é envolvida numa áurea de pureza e santidade e tocar no assunto é praticamente uma heresia ou mesmo um sacrilégio. Assim como qualquer ser humano normal, as mães têm defeitos só que algumas têm defeitos até demais e essa realidade - ou verdade - não é muito palatável quando se trata de um mito.

A tendência em se realizar nos filhos é comum à maioria dos pais, mas se torna mais evidente naqueles que não conseguiram tratar de suas frustrações e jorram em suas crianças todos os seus traumas e desgostos.  Não é difícil encontrar relatos de infâncias roubadas porque o pai ou a mãe obrigou a criança a passar horas estudando ou fazendo alguma atividade a fim de, no mínimo, alcançar a superação.  O que poderia, por exemplo,  ser uma simples e divertida aula de balé ou de judô, se transforma numa competição insana já que, na infância dos pais, o desejo de fazer ou vencer não foi realizado e, portanto, sua criança se torna responsável por preencher esse vazio, o que muitas vezes a leva a se tornar um adulto inseguro e com baixa auto-estima.

Há, porém, o outro lado, negro, inconfessável que, como bem definou Zuenir Ventura,  é "o mal secreto":  a inveja.  Sim, pois não é tão incomum assim encontrar pais que sentem inveja de seus filhos exatamente porque estes realizaram aquilo que é a causa de suas frustrações.  Uma formação acadêmica, um bom salário, uma realização profissional, um relacionamento amoroso, um talento ou capacidade que eles - os pais - não tiveram - tornam-se objetos de sua ira, mágoa e ressentimento em relação aos filhos.  E à vida. 

Mas voltando às "santas" do dia, existem mães que xingam seus filhos, escolhem um em detrimento do outro, menosprezam, envergonham, humilham e até matam, se não fisicamente, mas moral e emocionalmente suas crianças e, assim como a inveja, evitamos reconhecer a existência dessas mulheres.  A maternidade, contudo, não é passaporte para esse tipo de comportamento, que não deve ser aceitado nem tolerado, nem dos pais, nem de ninguém.  Às vezes não adianta, a pessoa não vai mudar, então,  é preferível bater em retirada a ter que viver em constantes conflitos.

Muitos pais usam o argumento de sua péssima infância para justificar sua violência ou autoritarismo.  Não percebem que a vida lhes dá uma oportunidade de começar - ou recomeçar - com a chegada dos filhos,  de corrigir a ausência de afeto e de curar as mágoas.  Porém, muito além de um sentimento, essa é uma questão de escolha.  Ou se semeia coisas novas e boas ou se mantém na mágoa da terra batida e seca.


Os filhos crescem rápido, porém, a gente sabe muito bem que o que fica para sempre, para o resto da vida deles é o que se vive nos primeiros momentos.  É o que se chama "memória afetiva" que deixa uma marca indelével na alma.  Mas cabe a nós escolher: ou repetimos o exemplo que nos foi passado, ou fazemos tudo novo.  Não creio que a maternindade seja algo místico, mas uma escolha porque, apesar de já ser batido e rebatido, ser mãe de VERDADE não é fácil, pois requer, entre tantos desafios, desprendimento e nem todo mundo está a fim de se desvencilhar de seu passado, de suas frustrações, das pedras que insiste em carregar.


O que eu desejo no dia de hoje é que você que é mãe não fique à espera de oblações, mas  proporcione aos seus filhos todo o amor e afeto que a vida lhe deu ou roubou. Sim, , doe, ofereça, abra os braços. Não use desse momento para cobranças, por mais que a tentação seja grande.  Dê aos seus filhos mais do bom do que você recebeu sem sufocar porque  eles não são responsáveis por suprir as tuas carências.  Assim como eu, você é frágil, imperfeita e, portanto, não é santa nem imaculada e não precisa de oferendas, pois quando a memória afetiva da sua criança é boa, você vai ser homenageada todos os dias e não burocraticamente uma vez por ano.


Bom domingo.

Barulho

Que o mundo anda muito barulhento não é novidade para ninguém.  Pior do que o mundo todo é o seu próprio mundo, aquele lugar onde você tenta se refugiar do barulho do mundo.  O meu mundo ultimamente tem estado assim, muito barulhento, e isso tem roubado a minha paz e tranquilidade.

Me lembro de que quando me mudei para o lugar onde moro, o silêncio foi uma dos aspectos que mais notei no lugar.  Apesar de estarmos extasiados não só com o imóvel mas também com o preço, o local em si é, como já falei algumas vezes por aqui,  cheio de facilidades ao alcance das nossas mãos.  Não há falta de comércio de espécie alguma, desde lojas de R$ 1,99 a shopping centers, sem falar na diversidade de transportes, clínicas e hospitais.  Campinho é um lugar muito bom, onde podemos ir ao mercado a pé ou escolher em qual feira ou hortifruti iremos comprar frutas e legumes.  As farmácias fazem entrega em domicílio e se precisarmos de uma pizza ou um frango na brasa, tudo se resolve a 1 ou 2 quadras.  A creche do Davi, então, fica a 20 minutos de casa.  A pé também.

Mas moramos perto de uma "comunidade". Perto até demais, por acaso.  Tão perto que qualquer barulho que se faça por lá reflete diretamente dentro do nosso apartamento.  À época da aquisição, um comentário da antiga moradora passou meio despercebido aos meus ouvidos: "o pessoal de lá gosta de uma musiquinha de vez em quando".  É um lugar tranquilo, no sentido de não ter violência, tráfico, tiroteios (senão, claro, não iríamos ficar ali!).  Porém, como estávamos... extasiados, não nos preocupamos com esse comentário.  E hoje, eu, principalmente eu, me arrependo de não ter dado a devida importância a um detalhe que tem feito toda a diferença no meu mundo que era tranquilo e silencioso.

Não há norma, limite ou... sei lá, conscientização por parte de quem coloca um barulho que vara a madrugada.  E o mais estressante é que sempre acontece nas madrugadas dos fins de semana, para meu total desespero e... desesperança.  Sim, porque quando nos mudamos a situação não era essa, passávamos noites maravilhosas, com o silêncio que é peculiar às madrugadas.  Porém, de uns tempos para cá, a coisa se tornou absurda e o que para mim era um paraíso se transformou num tormento sem fim e a vontade de me mudar fica cada vez maior.

Como já falei aqui também, morei durante grande parte da minha vida numa "comunidade", vulgo, favela, que é o nome verdadeiro.  Apesar das dificuldades típicas do lugar, não havia barulho algum e as pessoas, no geral, não costumavam ligar o som pelas madrugadas.  Pelo contrário, o que havia era uma espécie de campeonato de música, principalmente nos fins de semana, quando muita gente estava de folga e colocava seu som à potência máxima, numa competição até que engraçada, no afã de querer abafar o som do vizinho.  Roberto Carlos, Amado Batista, samba de raíz, pagode entre tantos outros estilos musicais era o que mais se tocava - até porque não havia essa porcaria de funk que existe hoje.  Era bem engraçado, porque chegava um momento em que não dava para entender nada, pois todos os sons se misturavam.  Até que, em determinada hora, já no começo da noite, todos se acalmavam, desligavam seus sons e o silêncio reinava absoluto.  Cresci acostumada com a ausência praticamente total de barulho, qualquer barulho e talvez por isso desenvolvi uma sensibilidade auditiva um pouco mais apurada.  Nesse quesito, eu era feliz e não sabia.  Hoje, vivo em pânico constante.

Existe barulho por todos os lados.  Por causa das obras da Transcarioca,  TODO o tráfego da rua principal foi desviado para a rua onde moro.  Mesmo morando nos fundos do prédio, ainda assim o som dos carros, ônibus, caminhões, betoneiras e dragas já chegam bem cedo em casa.  Até aí, paciência, pois por incrível que pareça, esse tipo de barulho não me tira do sério, talvez por eu não morar de frente para a rua, sei lá.

Mas há outros barulhos. Assim como as baratas, os carros de som se tornaram uma praga urbana e são típicos na zona norte e oeste da cidade, oferecendo os mais variados tipos de serviços e produtos.  Existe o carro de som do hortifruti e o que vende goiabada caseira e  queijo fresco.  Tem o carro de som que anuncia o próximo baile funk, a apresentação do circo, do cantor, do grupo não sei de quê.  Há também, por incrível que pareça, o homem do pão. Sim, em Campinho ainda existe quem venda pão de porta em porta, não em carros de som, mas pedalando uma bicicleta com um enorme cesto de palha cheio de pães fresquinhos, fofinhos, crocantes.  Pão de milho.  Pão de leite.  Pão doce.  E  talvez por causa do excesso de barulho, não há como gritar anunciando o pão, então, eles buzinam.  Eu até reconheço um toque de nostalgia no vendedor de pão, afinal, com a modernidade, vender pão de porta em porta nos remete a bucólicos tempos de outrora.  Mas a buzina estraga tudo.

E tem o incrível, fantástico, extraordinário, indefectível carro de som que vende pamonha.

Apesar de nunca ter experimentado, eu detesto pamonha.  Não gosto daquela trouxinha recheada com uma massa que não me cheira bem.  Acho até interessante sua forma artesanal, mas pamonha nunca me atraiu, pelo contrário, assim como tanta gente normal, não gosto daquilo que nunca provei, vai entender.   O carro que anuncia a pamonha fresquinha, fofinha, macia também não tem dia nem horário para amolar a paciência da gente.  E o que mais me chama a atenção é que todos, TODOS os carros de som que anunciam pamonha o fazem da mesma forma, já perceberam?  Por que anunciam da maneira mais chata possível?  Por que o som do carro de som que vende pamonha é tão insuportável, metálico, enjoativo, alto, incômodo? Acho que minha aversão à pamonha se dá mais por causa daquele jeito peculiar de ser anunciada do que pelo gosto em si. 

O egoísmo dos tempos atuais tem impedido as pessoas de pensarem no seu próximo.  Eu sei que isso é lugar-comum, mas um pouco de consideração aos vizinhos sempre faz bem, talvez mais até a si mesmo do que a eles.  Eu sei que quem mora na minha vizinha comunidade sofre muito mais com o barulho do que eu, assim como os outros moradores dos prédios ao redor.  Mas há quem, por incrível que pareça, nem se incomode, por costume ou conformação mesmo.  Sei também de lugares onde impera o tráfico em que os malditos bailes funk não têm hora nem volume com limite. Mas o excesso de barulho, principalmente de funk tem minado com a minha saúde.  A Regina Casé, a Xuxa e tantos quantos dizem amar essa porcaria não moram em lugares onde essa praga existe e toca no último grau de sandice.  Suas mansões situam-se bem longe dessa baderna e suas noites são tão silenciosas quanto o vácuo do espaço sideral, sem  funk, carros de som, muito menos os que vendem pamonha, que eu detesto. 

A cidade grande já é barulhenta por si mesma, e todos nós, em algum momento, não hesitamos em sentar a mão na buzina do carro 1 segundo após o sinal ficar verde.  Vivemos com as sirenes das ambulâncias, dos caminhões dos bombeiros, dos carros tunados, da polícia, dos rasantes dos helicópteros, do barulho  das motos envenenadas e dos carros de som que vendem de tudo um pouco. É muito barulho por nada, porque se barulho fizesse a gente chegar mais rápido em algum lugar pelo menos valeria alguma coisa.  

Há quem faça barulho quando vai dormir e quando acorda e quando chega ou sai de casa, pois ao pisar no seu chão está incomodando o teto do vizinho, com um salto alto, um cachorro sem educação, ou uma criança que cisma em jogar bola dentro de casa.  As propagandas de TV são altas, pode reparar.  Elas gritam seus produtos, a fim de chamarem a atenção para seu consumo.  As chamadas dos programas idem. Tudo é e está muito barulhento e quem cresceu no meio do silêncio, como eu, vive num esgotamento emocional cada vez maior.

Eu sei que eu me acostumei muito mal com a falta de barulho.  Fico observando Davi dormir com todo o barulho que me incomoda.  Ele vai num sono só e eu bem que gostaria de ser assim.  O pai é a mesma coisa, só que, como eu fico muito estressada, ele acaba se estressando também.  Apesar disso, talvez o único som que eu ainda tenho o privilégio de ouvir, em plena cidade grande - apesar de ser no Campinho - é o som do galo cantando.  Sim, no Campinho a gente ainda houve o galo cantar lá pelas 4 horas da manhã.  Algumas vezes também aparecem uns saguis, emitindo seu típico assovio e, claro, alguns pássaros comuns a vários lugares.

Sua cidade é calma, tranquila, silenciosa?  Você reclama do tédio, da falta de um "sacode" na pracinha principal?  Já não aguenta mais ser acordado pelo canto do galo?  O sino da igreja te incomoda, mesmo às 5 da manhã?  Você é feliz e não sabe, porque quem mora num lugar com alguma coisa perto de 1.000.000.000 de habitantes e não sofre com barulho é o sortudo da vez.  Há lugares maravilhosos por aqui, vilas residenciais tranquilas, ruas calmas, mesmo com o movimento do trânsito e APESAR dos carros que vendem pamonha, queijo fresco e goiabada.  Eu sonho em viver num lugar assim, mas, no momento, tenho que ter paciência e conviver com as consequências das minhas escolhas até um dia, quem sabe, poder me mudar para um lugar mais tranquilo e menos barulhento.

Aliás, eu já disse que eu detesto pamonha?

A Melhor Idade

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As dificuldades da vida fizeram com que eu passasse boa parte da minha infância longe da minha mãe, pois sendo solteira, sem casa, sem apoio familiar, ela teve que se multiplicar para me criar.  Por causa disso, acabei morando em vários lugares, com os mais variados tipos de pessoas, o que balisou a minha insegurança e me tornou uma pessoa sedenta de afeto. Tinha na minha mãe a minha salvadora, a heroína que iria me resgatar dos maus tratos e do pouco caso das pessoas com quem morei, e que iria me levar para uma casa e um lar, onde eu receberia carinhos, beijos e muito dengo.

Mas no dia em que finalmente nos juntamos, as coisas não foram bem assim.  Com seu temperamento forte, nunca nos entendemos direito.  A convivência, desde então, foi de muita tensão, muito embate e discussões.  Ela, querendo impor sua vontade e sua opinião e eu, tentando me impor, apesar das minha fraca estrutura emocional.  Nada de beijos, dengos e carinhos mas sim, a subjetiva cobrança de  que eu "tinha que dar certo" e ser exemplar.  Cresci, então, com a ideia de que o dever vem sempre e muito acima e além de qualquer outra coisa, ideia essa que ainda permanece até hoje.

Minha mãe sempre foi uma guerreira.  Muito ativa e altiva, ao mesmo tempo em que sempre se preocupou com a estética, nunca se furtou em "brincar com as panelas", já que é uma exímia cozinheira.  Da época dos meus estudos, não me lembro de nehuma série em que tenha me faltado 1 lápis sequer, e olha que a lista de material e de livros sempre foi grande.  E cara.  Ela sempre se esmerou em suprir essas minhas necessidades.

Morando numa favela, numa época em que o clamor do consumismo não era tão gritante como hoje, não tínhamos muitos bens materiais, porém, nosso barraco de madeira se diferenciava dos demais, pois que sempre arrumado, limpo e bem cuidado.  Com o tempo, a deterioração foi se fazendo mais forte, e já adolescente, tive que trabalhar para construir um cômodo de alvenaria, pois o tal barraco insistia em ameaçar de cair sobre as nossas cabeças.  Foram tempos duros e sombrios, em que mais apliquei o princípio do dever antes de tudo, acima e além.  Com muita dificuldade consegui me formar não uma, mas duas vezes, já que uma segunda oportunidade bateu à minha porta, o que fez todo o diferencial na minha vida profissional, apesar de não ter uma pós-graduação.

Cresci ouvindo de minha mãe que seu desejo sempre foi o de ter gerado um menino e em muitas ocasiões, quando criança, ela me chamava de "meu filho".  Na verdade, isso nunca me incomodou, porque o que eu mais queria era mesmo sua atenção e seus cuidados.  Hoje, com um neto menino, creio que seu sonho tenha sido realizado, mesmo que parcialmente.

Minha mãe é uma avó clássica, daquelas que querem dar e fazer tudo o que o neto pede e tendo apenas um único neto, então toda a sua atenção se volta para ele.  Não se furta a atender aos apelos manhosos de Davi, e se não sou eu a bruxa má da história, a situação seria bem pior.  Ele, por sua parte, ainda não tem despertado o lado interesseiro que a ocasião lhe proporciona, o que lhe daria poder para chantagens emocionais, porém, quando eu ou o pai lhes dão um passa fora, é para os braços da avó que ele corre.

Passei boa parte da minha vida cuidando da minha mãe.  Me lembro que em torno dos meus 10 anos de idade ela foi operada das varizes.  Naqueles tempos bicudos e com todas as dificuldades em que vivíamos, tive que dar-lhe banhos e fazer os curativos, além de acompanhá-la às consultas.  Desde então, tenho sido uma espécie de para raios dela e há muito deixei de ser filha para ser sua responsável, apesar de seu contragosto.

Nos últimos tempos, com as restrições que a idade impõe a todos, tenho que me adaptar a conviver com uma nova realidade: cuidar de uma idosa.  Depois de algumas outras cirurgias e vários sustos que culminaram no último princípio de isquemia, minha mãe se tornou ainda mais dependente de mim. Contudo, sem abrir mão de sua altivez, ainda nos desentedemos várias vezes.  Mesmo assim, tenho tentado me adaptar aos seus limites, às suas falhas de memória, às suas limitações físicas, à sua idade. 

Quando olho para minha mãe, vejo cada vez mais fortes as marcas do tempo, das dificuldades  vividas,  das suas frustrações.  Cabelos fracos e ralos, rugas e flacidez,  movimentos mais restritos, doenças e limitações normais que a velhice traz para a maioria das pessoas normais. Imagino que para ela não esteja sendo fácil essa sua nova realidade, da mesma forma que para mim, me adaptar às suas limitações também tem sido um desafio.

Com a expectativa de vida cada vez maior, viver a velhice nos dias de hoje tem sido muito mais saudável, com muitas atividades físicas e lúdicas, com danças, teatros, além das vantagens que o Estatuto do Idoso trouxe aos nossos velhos, onde se prioriza o atendimento aos que o politicamente correto chama, h-i-p-o-c-r-i-t-a-m-e-n-t-e, de Melhor Idade. Digo hipocritamente porque não podemos ignorar que a velhice traz, sim, limitações, desconfortos e, em muitos casos, infelizmente, maus tratos e humilhações.  Acredito sim, que a maturidade e as experiências da vida podem nos fazer pessoas melhores - se quisermos, claro -, porém, fisicamente, a idade traz restrições e doenças e impõe limites dos mais variados.  Portanto, dizer que alguém está vivendo a "melhor idade" me soa muito falso, até porque ninguém quer ficar velho, essa é a verdade.

Temos que cuidar dos nossos velhos, não importa o tipo de relacionamento que tivemos com eles no passado.  Algumas pessoas não mudam jamais e quanto mais velhas ficam, mais seu temperamento se acentua.  O que nos resta, enquanto ainda somos menos velhos, é isso: cuidar, tratar, ter paciência e principalmente respeitar, deixar de lado as implicâncias, relevar algumas coisas, ignorar outras, afinal, essa realidade também chegará nas nossas vidas um dia e o que esperamos, de fato, é que nossos filhos façam conosco o que fazemos com nossos idosos. 

Mas é difícil....

Sobre Crianças, Tecnologias e Consumismo

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O texto e grande... sorry.

Vou confessar uma coisa que às vezes tenho até vergonha de dizer: eu nunca, nunquinha joguei videogame.  Nada, nem o tal do "come-come".  Não é questão de ser do tempo em que a TV era movida à válvula, mas é que realmente os jogos eletrônicos nunca me atraíram.  Também não me lembro de ter tido oportunidade de ser apresentada a algum, já que na minha adolescência eu passava boa parte do dia fora de casa, entre trabalho e estudos, e o tempo que restava era bem pouco. Creio que minhas condições financeiras também cooperaram para que os videogames ficassem sempre à margem das minhas possibilidades.  Também sou meio analfabeta digital e reconheço que muitos dos recursos tecnológicos existentes ainda sejam novidades para mim, o que faz com que qualquer criança hoje em dia tenha competência digital o suficiente para me ensinar sobre i-pads, i-pods, i-phones e outros "ais" que venham a existir, além dos diversos tipos de jogos eletrônicos, claro.

Acho que sou meio metódica ou, talvez, ultrapassada em algumas coisas.  Tenho a mesma linha telefônica desde que comprei o meu celular, há uns 15 anos.  Por mais que tente, não consigo ler e-books, tenho que imprimí-los.  E ainda gosto de comprar CD's e DVD's.  E livros, daqueles feitos de capa dura de papelão e papel, brochura, essas coisas, sabe.  Em casa existem 3 TV's: 1 de 29" e 1 em cada quarto, de 20".  Das antigas, quer dizer, ainda não são de LED, com full HD e widescreen, 3D, Progressive Scan,  Blue Ray, Internet conectada com a Nasa.  Como eu tenho outras prioridades, ainda não foram trocadas e ainda funcionam muito bem.  Há também 1 Lap-top e 1 máquina fotográfica digital - não chega a ser uma Tecpix, mas atende. 

Talvez por causa dessa precariedade de recursos digitais, Davi ainda não saiba, sequer, usar o controle remoto para ligar a TV, ou colocar o DVD para tocar ou, ainda, usar o celular.  Nos últimos dias tenho até deixado que ele manipule um pouco a máquina digital, a fim de se familiarizar com alguma coisa desse tipo.  Ainda não havia me dado conta desse analfabetismo digital do meu filho.  Primeiro porque ele ainda está na fase da "mão destruidora", pois sua curiosidade faz com que ele fuce as coisas ao ponto de quebrá-las.  Depois, porque eu acho que como sou bem desligada nesses recursos tecnológicos eu acabo não passando essa curiosidade para ele.  Talvez alguém me diga: Luciana, você não sabe o que está perdendo.  Mas... será que não?

Como eu falei brevemente aqui, nos seus três anos de vida Davi não foi estimulado a fazer nada além daquilo que eu considero que esteja dentro da sua idade.  Sendo uma típica criança de "cidade grande" e morador de apartamento, ele passa o dia inteiro entre creche e casa, com poucas horas ao ar livre. Sempre que posso, tento oferecê-lo alguma atividade fora das quatro paredes da casa, para correr, de preferência descalço, pegar frutas no pomar, tentar andar de bicicleta ou ir atrás de uma bola ou empinar uma pipa em alguma pracinha próxima e cheia de poeira.  Ainda assim, há dias em que ele passa um bom tempo em frente à TV, o que às vezes me enche de sentimento de culpa e de incompetência.

As tecnologias estão aí, muitas para facilitar as nossas vidas, pois alguém imagina como conseguimos sobreviver sem o telefone celular, que pode ser adquirido em qualquer stand na esquina mais próxima?  Sim, pois houve um tempo em que só existia telefone fixo, e mesmo assim, era para poucos.  Computadores, então, eram basicamente para empresas.  Poucas empresas, claro.

E não demorou muito para que essa tecnologia também adentrasse às salas de aula.  Há, inclusive, algumas instituições em que o uso do caderno, livro e canetas e lápis já foram abolidos, assim como o quadro negro.  Alunos portando avançados tablets e lap tops com a última palavra em recursos digitais recebem aulas de professores que, no lugar do bucólico giz de cera, orquestram suas narrativas com a luz vermelha do laser-point, apontando para um grande telão que projeta cálculos, teoremas e definições elaboradas no Power Point.

Davi tem aulas de informática na escola, mas nada que ainda se reflita em casa, pelo menos nenhuma habilidade que eu tenha reparado quando ele está na frente do lap top.  Talvez o que ele tenha seja apenas uma leve introdução ao mundo digital, mas nada que tenha trazido algum impacto mais relevante no seu comportamento doméstico.  Talvez seja por causa do meu analfabetismo digital, juntamente com o fato de que eu priorize outras coisas que não sejam equipamentos de última geração, então, o guri, até hoje, como falei, não sabe usar, sequer, o controle remoto.

Não significa que eu não queira uma TV de LED widescreen, com full  HD, 3D, Progressive Scan,  Blue Ray, Internet conectada com a Nasa, de 68 polegadas ou que eu não venha a adquirir um "ai"-qualquer-coisa, não é esse o caso.  Eu quero, sim, mas não tenho, agora, necessidade.  Não sou diferente de ninguém que queira surfar na última palavra em recursos digitais, mas também não fico na dependência ou na necessidade de T-E-R só porque ... existe.   Ou porque o vizinho tem.  Ou porque o coleguinha da creche do Davi também tem.


A matéria de O Globo fala sobre crianças que, aos 6 meses de idade, já estão sendo apresentadas ao tablet.  Pergunto: para que?  Serão mais eficientes ou mais inteligentes do que outras?  Ou apenas terão sua necessidade transformada em fome consumista?  Por outro lado, já imagino o brilho no olhar dos pais que dizem que seu bebê, que às vezes nem dentes colocou ainda, já sabe lidar com informática.  Uau!  Vejo também o sorriso largo dos donos de creches e escolas que, para atrair um público cada vez mais ávido por novidades, oferece serviços sofisticados como esse. A eles poderíamos dizer que são os que riem por último e  melhor.  E bem alto.

É sabido por muitos que o excesso de tecnologia e principalmente a influência da TV e dos games  têm sido um dos  grandes males da infância desta geração.  Pois tudo o que é excesso por óbvio não é saudável, porém, ainda assim há quem se deixe levar pelo canto da sereia e expõe suas crianças à última palavra em videgames e outros recursos digitais e tecnológicos.

Não tenho a menor pretensão de criar Davi longe dessa realidade, afinal, eu sou bastante lúcida para saber e reconhecer que ele faz parte dessa geração que nunca saberá o que é viver sem um aparelho celular, muito menos um computador. É bem provável  também que eu nunca irei acompanhá-lo em algum jogo eletrônico, pois eu sequer sei usar um joystick.  O que eu acho que ainda posso fazer é retardar um pouco a sua iniciação ao consumismo tecnológico e digital, já que ele terá toda a sua vida para escolher os mais avançados aplicativos e equipamentos de última geração, desde uma TV de 173 polegadas até um "ai"-qualquer-coisa 958.


Os joguinhos virão, a tecnologia vai ficar cada vez mais refinada e avançada, mas nada disso pode substituir a vivência e experiência pessoal, do contato físico e real.  Do pé no chão, sabe.  O que vemos por aí são crianças crescendo dentro de uma bolha virtual, que não conseguem sequer se comunicar com outras crianças, nem com os próprios pais, pois passam grande parte de seu tempo teclando seus aparelhinhos sofisticados descontroladamente, na troca de mensagens vazias que alcançam milhões de outras pessoas, mas que não acrescentam nada a ninguém, nem a elas. 


Às vezes eu confundo a minha vergonha em não saber jogar um videogame com o fato de Davi sequer saber ligar um controle remoto.  Mas aí eu paro e penso que esse não pode ser meu objetivo maior e sim, que ele tem que viver a infância dele com a maior intensidade possível, pois ela passa muito rápido e não há momento da vida mais marcante do que esse.  E para eternizar isso, até uma câmera fotográfica de filme preto e branco resolve, não é?



Sobre Babás, Uniformes e Preconceitos

Que a escravidão é uma página vergonhosa da história do Brasil muita gente já sabe.  Nosso país foi um dos últimos na América Latina a  libertar seus escravos e o fez da maneira mais mal feita possível, ao negar a essa gente um pedaço de terra e uma oportunidade de recomeçar de forma digna.  Na verdade, o que temos é um processo de libertação lento e gradual dos escravos negros e seus descententes, que se reflete, com algumas exceções, na sua ausência nos postos mais altos do país.  Somente no século XXI, por exemplo, é que o país passou a ter um negro na mais alta corte da Justiça - o Ministro Joaquim Barbosa, no STF.


Não estou aqui para fazer qualquer tipo de discurso ou estudo sócio-antropológico sobre o assunto escravidão e que tais por ser um tema muito vasto e que levaria algum tempo para pesquisas, coisa que eu não tenho.  Mas o que me moveu a escrever este post foi o bafón do momento, que é a proibição de acesso às babás não uniformizadas por parte de alguns clubes sociais - mais informações, aqui.

A maioria das pessoas, principalmente algumas ONG's - Educafro, por exemplo - alegam preconceito racial e social o fato de alguns clubes sociais impedirem o acesso a babás que não estejam devidamente uniformizadas. Na sua opinião, o uso do uniforme serve para estabelecer publicamente a divisão sócio econômica entre patroa e empregada.  Algumas babás, por sua vez, reclamam que sofrem preconceito por causa do uso E do não uso do uniforme.  Outras dizem que as crianças das quais cuidam sequer as chamam pelo nome;  usam apenas o termo "babá".  Surge também um movimento de repúdio ao uso do uniforme de babá.  E tudo foi parar no Ministério Público.

Semana passada, a OIT - Organização Internacional do Trabalho - classificou o Brasil como o país onde mais existem empregados domésticos (aqui). Assim como as empregadas domésticas, as babás  também  foram, por muito tempo, consideradas como mucamas de suas patroas, com poucos direitos e muitos deveres.  Com a mudança da estrutura familiar, em que as mulheres tiveram que sair de casa para trabalhar, ficou cada vez mais difícil encontrar uma "boa" empregada e principalmente uma "boa" babá.  Por conseguinte, essa mão de obra tomou nova roupagem, com cursos profissionalizantes e de especialização e até sindicatos.  Ser empregada doméstica ou babá nos dias de hoje não é mais um subemprego, é profissão.  Contratar a mão de obra desse profissional é para poucos, pois ela é cada vez mais valorizada, rara e cara.

Não vejo como preconceito racial ou social o uso de uniformes nas babás.  No caso do preconceito racial, o argumento não se justifica pois existem babás não negras.  No caso do aspecto social, nem toda a babá pertence a uma classe social menos favorecida, pelo contrário, hoje em dia existem babás graduadas e pós graduadas e que percebem um salário bastante elevado.   Se uma enfermeira, um médico, um guarda municipal, uma recepcionista, um motorista particular usam uniforme, qual o problema no uniforme da babá?  Pois no caso dos clubes privativos, a questão - pelo que eu entendi - é a proibição do acesso a babás SEM uniformes e não às babás em si!  Se fosse esse último o caso, aí sim eu creio que seria considerado preconceito.

Com uniforme ou não, a distinção entre a babá e a patroa acontece da mesma forma simplesmente porque ela é tão clara quanto a luz do sol!  Por outro lado, o uso do uniforme sinaliza que aquela pessoa é responsável por determinada criança e, portanto, não há possibilidade de ser confundida com outra pessoa qualquer.  Chega a ser até uma questão de segurança, pois quem se aproximar da criança sem uniforme certamente é alguém que não é responsável por ela.  Pode até ser amigo ou parente mas, como saber, já que a pessoa está "à paisana"?  Além disso, o uso do uniforme não deixa de ser uma forma de economia para a babá, já que ela não terá a necessidade de usar suas próprias roupas para trabalhar.

O problema, contudo, é a questão do tratamento pessoal entre patrões e babás.  Os ecos da escravidão ainda deixam rastros na maneira de muitas pessoas se relacionarem com seus empregados, de forma a tratá-los, ainda, como meros serviçais, o que reflete naquele caso da babá que reclama que a criança nem a chama pelo seu nome, apenas usa o termo "babá", talvez como forma de despersonalizar a profissional e de aplicar um tratamento impessoal que sirva para reforçar ainda mais a distinção sócio econômica entre patroa e babá.

Não acredito em preconceito de raça, visto que a miscigenação das raças formou uma nação de pessoas das mais variadas tonalidades de pele.  São poucos os brasileiros que podem dizer que são 100% "puros" em relação a alguma raça.  O que se tem, a meu ver, é preconceito de cor, pois alguém que tem pais negros e nasce mais claro pode ser mais socialmente aceitável do que aquele que tem a pele mais escura.  Por outro lado, ainda existe, sim, o preconceito social, em que a pessoa é tratada de acordo com o seu poder aquisitivo.  Mas essa não é uma prerrogativa do Brasil, pois se manifesta em praticamente todas as sociedades.

Na minha adolescência eu fui empregada doméstica e babá por algum tempo e trabalhava basicamente nos fins de semana - a chamada baby sitter.  Eu não usava uniforme e nem por isso deixei de ser tratada como apenas uma serviçal ou de receber olhares enviezados por causa da minha cor. Apesar de não usar uniforme, ainda assim eu tinha que usar o elevador de serviço, portanto, não é o uniforme em si que causa o tratamento diferenciado e sim a maneira como as pessoas percebem as outras.  Talvez o uniforme apenas reforce o preconceito, que já está incutido na pessoa.

Ainda bem que a vida nos dá oportunidade de nos tornarmos pessoas melhores para que nossos filhos também se tornem pessoas melhores.  Assim, podemos formar cidadãos respeitados e respeitadores, independente do que vestem e do quanto de valor monetário existe em sua carteira.  Aí, um uniforme e uma conta bancária serão apenas detalhes.  Não é preciso tratar a empregada ou a babá  "como-se-fosse-da-família", pois profissionalismo existe para todas as situações.  Mas respeitar as pessoas independente de cor, de sexo, de posição sócio econômica ou acadêmica é uma opção de valor de vida, nada mais.

Terceirização, Maternidade, Culpa e Rótulos

O que é terceirização?  Para que serve?  De acordo com a wiki, terceirização é 'Prática que permite a empresa abrir mão da execução de um processo e transferir para um terceiro, portador de uma base de conhecimento mais especializada, com o objetivo de agregar maior valor ao produto final.' [Leonardo Leocadio].   

O objetivo principal da terceirização é a busca de redução de custos sem afetar a qualidade do serviço e no nosso país a terceirização tem tomado lugar cada vez maior em vários setores de prestação de serviços: desde encarregados de serviços gerais até médicos podemos encontrar profissionais que atuam como terceirizados. 

E outro dia, entre um comentário e outro neste post  do blog minha casa, meu mundo (muito fofo, diga-se de passagem), alguém colocou alguma coisa desse tipo: a terceirização da maternidade. O tema central do post - que se referia a outro post de outro blog - era a rotulação a mães que trabalham fora.  E eu, como trabalho fora, me identifiquei com o debate boca.


Nesses tempos bicudos, muitos casais escolhem ter apenas 1 filho e uma dessas razões é a questão financeira, pois muitos querem dar uma boa escola, um curso de línguas, uma atividade extracurricular, uma boa alimentação às suas crianças.  Nos casos em que algum ou os dois cônjuges já têm filhos de relações anteriores, aí é que parece que essa opção é quase certeira, uma vez que os gastos ficam maiores.  E para ajudar nas finanças domésticas, muitas mães trabalham fora tanto quanto seus maridos.  Ou são mulheres que já eram independentes antes de se casar/juntar/engravidar, ou que decidiram voltar ao mercado de trabalho, dentro ou fora de casa.  Ou seja, as razões são variadas, mas o que se não pode fazer é tacar pedras na mulher que, por falta de opção tem que trabalhar fora, já que seus rendimentos são responsáveis por boa parte do orçamento doméstico.

Uma vez que não dá para se dedicar integralmente, essas mulheres acabam por colocar sua criança nas mãos de alguma empregada doméstica ou babá ou na creche.  E aí eu pergunto: isso é terceirizar a maternidade?  Porque um dos pontos da discussão era esse e um dos argumentos para embasá-lo era: a mulher decidiu ter filhos para outra pessoa criar?

Além de ser fraco, esse argumento é bem descabido porque, como já citei, às vezes não é questão de apenas querer continuar sendo independente, mas de falta de opção.  Porque ter coragem de abrir mão de um salário robusto somente para ficar em casa cuidando dos filhos é para poucas pessoas.   E ainda assim há aquelas que simplesmente gostam de trabalhar e de ganhar seu próprio dinheiro.  Eu sou filha de mãe que trabalhou fora também, gosto de trabalhar e trabalho desde os meus 15 anos, mas, numa boa, se meu marido me depositasse o equivalente ao meu salário todo o mês, eu ficaria em casa, com certeza.

Essa história de que colocar filho na creche ou nas mãos de uma babá é terceirização é boa só para quem não passa o sufoco de muitas mulheres que querem dar um mínimo de conforto ao seu lar e família.  Lamento infelizmente não poder acompanhar o crescimento dia a dia do Davi, de deixar passar detalhes, descobertas e tudo o mais.  Porém, fazer o que?  Ficar me culpando o tempo todo? Me deixar rotular?  Não.  Até porque, repito, não trabalho só porque gosto, mas porque preciso, e muito.  Diferente seria se eu tivesse oportunidade de ficar em casa o dia inteirinho e delegasse totalmente a outra pessoa o cuidado e educação do Davi.  Aí, sim, acho que é terceirização, já que seria  "...abrir mão da execução de um processo e transferir para um terceiro, portador de uma base de conhecimento mais especializada, com o objetivo de agregar maior valor ao produto final."   

Apesar da lenha que é ter que trabalhar e ter casa e família para cuidar, não tenho a menor intenção em abrir mão da execução do processo de educar e cuidar do meu filho, muito menos transferir essa responsabilidade para quem pode até ser mais competente como mãe do que eu.


Por outro lado, quantas não são as mães que ficam em casa o dia inteiro e não dão 1 minuto de atenção para sua criança?  Portanto, o pulo do gato não é a quantidade e sim a qualidade que se dá ao tempo que se tem.  Tem dias em que eu chego morta de cansada e só gostaria de tomar um banho e ir me deitar.  Mas não posso porque tenho um pequeno para dar atenção, carinho, para ler alguma história, dentro de um tempo curtíssimo, até porque ele também fica o dia inteiro sem mãe nem pai e carece dessa atenção.

Como também sou dona de casa, reconheço o valor de quem se dedica aos filhos e à casa em tempo integral, porque trabalho de casa não aparece nem termina nunca, e por essa razão não rotulo ninguém que realmente PODE ficar em casa (porque há casos em que a pessoa se dá ao luxo de ser dona de casa sem poder, né).  

De vez em quando a culpa bate na minha cara? Com certeza, até porque culpa e maternidade são praticamente irmãs, não é?  De vez em quando eu fico frustrada por constatar que Davi já sabe de coisas  que foram aprendidas na creche e não comigo?  Com certeza, porém, a responsabilidade maior de orientá-lo e educá-lo eu não transferi para ninguém, porque ela é minha e de mais ninguém, trabalhando fora ou não.

Então, o negócio é respirar fundo, tocar a bola para frente e torcer para que um dia eu possa ter condições de ainda pegar um restinho de sua infância e poder curtí-la o quanto puder.  Poder levá-lo e trazê-lo da escola, por exemplo, é um dos meus grandes desejos, porém, por enquanto assim vivemos, porque a vida moderna assim é.  O certo é que não me torno uma mãe menor por trabalhar fora, porque faço  isso com a consciência tranquila de que não é uma opção, é uma falta de opção e é para o bem dele e de todos, afinal. Mas posar de mãe integral e ficar com a corda no pescoço não é comigo, porque para mim não adianta nada só aparecer, tem que PODER SER.


Verdades, Verdades e Verdades

Meia-verdade é sempre uma mentira inteira.

A verdade dói só uma vez. A mentira dói toda a ver que você lembra.

A verdade pode machucar por um tempo, mas a mentira dói para sempre.

Uma garrafa de vinho meio vazia também está meio cheia,
mas uma meia-mentira não será nunca uma meia verdade.

Uma mentira mil vezes repetida se torna uma verdade autenticada.

Uma verdade enfraquece quando tenta esconder uma única mentira, e uma mentira fica mais poderosa quanto mais verdades tenta esconder.

Há muito tempo, numa palestra na empresa sobre relacionamentos, a profissional colocou um tópico sobre o uso da verdade.  Pode-se usar a verdade para construir ou destruir pessoas, ou seja, a verdade pode ser usada com ou sem amor.  Já reparei, por exemplo, que muita gente que é grossa faz questão de dizer que é sincera, pois usa a verdade não para reforçar ou construir laços, mas para dilacerar vidas. A verdade é que a verdade dói, mas deve ser bem colocada, bem usada, porém, dói mais ainda a mentira, porque nela está também atrelado o sentimento de traição, e aí, parece que o golpe é duplo.  

Ninguém está imune a falar uma mentira, por menor que seja.  Cazuza já cantava que mentiras sinceras me interessam, e uma das célebras frases de Tim Maia era: não fumo, não bebo, não cheiro.  Às vezes minto um pouco.  Nem sempre é conveniente usar da verdade verdadeira, afinal, o que fazem os maridos que são vítimas da fatídica pergunta "estou gorda?" feita por suas esposas neuróticas?  Tentam aliviar a situação respondendo alguma outra coisa que às vezes não tem nada a ver com a pergunta.  Mas quantas vezes queremos dizer "umas verdades" para o chefe ou para aquele abominável colega de trabalho, porém, acabamos engolindo a seco para salvar o dia e o emprego e até elogiamos a pessoa?  Em outras ocasiões,  porém, não podemos jamais perder a oportunidade de jogarmos na cara daquela prima ou tia as verdades que elas têm que escutar, além daquela vizinha, que precisa também ouvir algumas verdades sobre seus filhos sem educação!

Já imaginou se toda a verdade viesse à tona, da maneira mais crua possível?  Quando algum figurão deixa o microfone aberto e solta uma frase que mostra claramente o que ele pensa, mais do que o que ele falou?  A depender do figurão, dá até crise política internacional!  O que acontece é que, para sobrevivermos, usamos uma capa para nos esconder ou nos proteger, porque a verdade, que já é dolorida, se não for usada corretamente, tem o efeito de uma bomba atômica.  Mas a verdade, apesar de dura, é leve.

A mentira, por sua vez, requer da pessoa uma capacidade intelectual acima da normal, já que ela tem que ter uma memória privilegiada para sustentar suas argumentações e inventar mais mentiras ainda, afinal, cada mentira puxa outra mentira, que puxa outra mentira.  Lembrar-se de todas elas, em detalhes, de forma a não se afogar nesse balaio de mentiras é para poucos.  Há quem consiga sustentar uma mentira até o fim, porque aí o que pode estar em jogo é um ego inflamado ou a falta de humildade de reconhecer que mentiu e errou.  Há quem consiga repetir uma mentira tantas e tantas vezes que ela acaba se tornando uma verdade para o próprio mentiroso. 

Saber ou não mentir não significa não mentir.  Eu não sei mentir, mas não deixo de mentir de vez em quando. Por mais que pareçam semelhantes, são coisas bem diferentes.  Todos mentem, até aqueles que se dizem tão sinceros que só usam a verdade, aquelas pessoas grossas de que falei acima.  Elas também mentem porque, como falei, não usam a verdade pela verdade, mas para a destruição.  Eu digo que não sei mentir porque eu não tenho memória suficiente para sustentar uma mentira por muito tempo e acabo me contradizendo, e às vezes sou desmascarada não pelos meus gaguejos e falsos argumentos, mas pela minha própria cara, que me desmente descaradamente.
A verdade é que encarar a verdade requer também muita coragem.  E coragem às vezes é essencial para a sobrevivência, pois o medo de se encarar a verdade não deve ser maior do que a vergonha de se descobrir a mentira.  Quantas vezes é melhor sentar em cima daquilo que se sabe não ser a verdade, ao invés de encará-la?  Sim, porque o puff da mentira é muito macio e aconchegante e quentinho e em algumas situações, só o tempo tem o poder e a força para mostrar a verdade, porque por mais que alguém se esforce para mostrá-la, às vezes o outro não quer saber dela.  Existem outras situações em que realmente é melhor  nem saber a verdade, porém, ela é a base primária para todo o tipo de relacionamento, do mais superficial ao mais profundo e sem ela, nada funciona.

Tenho passado por momentos em que tenho que encarar algumas verdades para me manter viva e mentalmente sã.  As bordoadas são pesadas, mas diferente da mentira, a verdade não é mortal, é para vida, para a saúde e também para a liberdade, porque a mentira escraviza.  Eu sei que vai doer mais ainda, mas é como arrancar um dente: depois que a anestesia passa, a gengiva ainda fica dolorida, além do buracão, mas aos poucos a natureza trata de fechar esse buraco e a dor não existe mais.  E aí nos sentimos livres, leves e soltos, e o versículo bíblico que traduz essa verdade com clareza absoluta é:


E conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará.
João 8:32

Mas para isso, há de se ter muita coragem, força e vontade.


Campanha Eleitoral 2012

Veja se eu não sou meio pancada?  Sim, porque eu gosto de assitir programa político em época de eleições e isso não é uma coisa muito normal, não é? 

Não tem outra: todo o ano eleitoral eu faço questão de assistir aos prováveis candidatos a cargos públicos.  Não estou falando dos cargos principais, como prefeito, governador ou presidente, mas de deputados e vereadores, principalmente esses últimos.

Me lembro da vez em que chamei a atenção do povo de casa para isso.  Na hora da propaganda, a tendência natural da gente é, infelizmente, trocar de canal, porque no geral, é tudo muito chato e repetitivo, porque a cara de pau dos postulantes é muito dura e todos, absolutamente t-o-d-o-s os candidatos prometem as mesmas coisas: habitação, segurança, saúde, educação, emprego.

Eu digo "infelizmente" porque eu acho que nós, povo brasileiro, ainda temos alma infantil em termos de eleições.  Não sei exatamente o que aconteceu desde o fim da ditadura e o recomeço da democracia, mas parece que permanecemos num estado constante de letargia, que reflete na eleição de figuras que sabemos que vão nos roubar e não serão punidas.  Acho que ainda falta uma consciência do poder do voto, que ainda está em nossas mãos, mas talvez o que paira mesmo é a certeza da impunidade, principalmente dos governantes, que sempre se safam de algum condenação, nunca são presos ou devolvem o dinheiro que desviam.

Enfim, de tanto eu insistir acabei convencendo meu pessoal a assistir o que eu considero um verdadeiro programa de comédia.  São pessoas dos mais diversos recantos do país ou da cidade, com nomes, caras e bocas dos mais bizonhos que fica até difícil de acreditar que sejam de verdade.  Eu sei que no começo é difícil, o estômago reclama, mas depois que a gente se acostuma, fica mais fácil encarar as propagandas eleitorais.

Dê uma olhada no que vem por aí.


E se você acha que é mentira, clique aqui.

Esse é o resultado de se viver  num país livre, onde todos podem se candidatar.  Por outro lado, a quantidade de partidos que são criados a cada ano é simplesmente absurda.  Quem dera aqui fosse como nos EUA, onde só existem 2 partidos: Democratas e Republicanos e ponto final.  Acho que assim as coisas seriam mais transparentes e não haveria essa profusão de gente concorrendo a cargos públicos.

Mas voltando aos candidatos, esses são apenas alguns, dos vários milhares de candidatos. Não é uma questão de imagem, mas, me diga: como ter alguém que se chama "Xota Oi Meu Bem" como vereador?

Lembre-se que o primeiro turno é no domingo, dia 7, então, vá logo procurando seu Título de Eleitor, porque agora é obrigatório apresentá-lo.  Enquanto isso, aproveite essa última semana e assista à propaganda política, uma ótima oportunidade para se distrair e escolher em quem NÃO votar!

E viva a democracia!!!!!

Fazendinha

Com um feriadão de sol e o salário nas mãos, muita gente não titubeou e decidou viajar, principalmente para a praia.  Para muitos, vale o sacrifício de ficar atracado num engarrafamento monstro por horas a fio para desfrutar de alguns dias fora do tumulto da vida urbana.  

Nesse caso eu já sou bem enjoada: eu não gosto de sofrer.  Porque se é para passar perrengue, dormir em colchonete, sofrer com falta de água e ficar num lugar entupido de gente... eu prefiro ficar por aqui mesmo.  E se for o caso de ir para a região dos lagos, aí é que eu não me importo mesmo, porque praia também tem por aqui, e a mesma água que bate lá, bate cá.  Meu lema é: só saio de casa para ir a algum lugar igual ou melhor que minha casa.  Eu disse "melhor", não chique, requintado, até porque eu não moro num palacete, mas não abro mão de um mínimo de conforto só por causa de um feriado prolongado. Não tenho mais paciência ou idade para isso. Eu sei, eu sou chata, mas de tanto insistir nessa tese já convenci algumas pessoas de que às vezes esse esforço todo não vale a pena.  Então, às vezes é melhor ficar quietinha no seu canto a ter que pagar, literalmente, para se aborrecer.

E para aproveitar o feriadão com veranico, resolvemos levar Davi para visitar a Fazendinha - Estação Natureza.  Como eu já falei por aqui, Davi é aquela típica criança que mora em apartamento e passa o dia todo em creche, ou seja, contato com a natureza só não beira ao zero por causa do pomarzinho que temos nos fundos do prédio.  Mas em relação a conhecer animais e a andar com o pé na lama, o índice é zero mesmo, então, nada melhor do que conhecer in loco animais que eram tão comuns de se conviver na infância de muita gente, como a minha, por exemplo.

Assim que chegamos Davi já saiu correndo atrás do primeiro pato e da galinha que viu pela frente. Se ele não tem medo de cachorro - qualquer cachorro - não seria um animal penudo que iria intimidá-lo.





E lá ia ele, tentando caçar galinha, galo ou pato e já entrando no "clima de fazenda", ou seja, colocando o pé no chão e se enchendo de poeira. A primeira parada foi na sessão dos bodes e derivados.






Depois fomos ver bois e vacas, quer dizer, O boi e algumas vacas.  Aliás, que boi enorme, gente! 




As crianças também podiam montar a cavalo, mas.... quem disse que o Davi quis?  Empacou, emburrou, embirrou, enfim...o básico.

E como o tempo pedia um banho, lá tem um espaço cimentado por onde saem alguns jatinhos de água, então, com sua indefectível sunga azul, Davi aproveitou para esfriar a cabeça e o corpo.



Depois de um tira e bota de sunga e cueca - e ele ainda queria ficar pelado - fomos mostrando outros bichos, até chegarmos ao chiqueiro.  

Agora, uma pausa, meu povo: como eu já falei nesse post, nem todo mundo nasceu para ter contato com bichos.  Eu entendo perfeitamente, pois, apesar de gostar de aves e mamíferos, eu tenho verdadeiro p-a-v-o-r de répteis, anfíbios ou qualquer animal rastejante. Chego a ter pesadelos com lagartixa, a ponto de acordar gritando e acho que se algum dia alguma cair sobre mim, eu morro, no mínimo.  Porém, uma vez que a pessoa se propõe a visitar um lugar chamado "Fazendinha", é de se esperar um ambiente natural, com cheiro de bicho, com lama, terra batida, titica de galinha, bosta de cavalo e de boi, só para citar o básico.

Então, esse negócio de ter nojinho disso e daquilo não tem espaço num lugar como esse.  Eu deixo o Davi super à vontade, principalmente descalço, já que ele fica calçado o dia inteirinho. Quero mais é que ele corra atrás das galinhas, que toque nos animais, que fique todo empoeirado.  Claro, como eu também falei no post citado acima, não precisa ter contato com excrementos, porque tudo tem limites. Agora, se não for assim, o melhor é ir para o shopping center mais próximo, porque lá vai ter ar condicionado e animais de plástico.

Por que essa pausa? Porque quando estávamos visitando os chiqueiros, me chega uma dona, toda trabalhada na sandália de saltinho, e solta um "ai, que noooooooooojo!" retumbante.  Pergunto: de onde ela pensa que vem a linguiça que ela come na churrascaria do shopping onde ela vai??? Do Mac Donalds? Me deu uma vontade enorme de jogá-la dentro de um dos chiqueiros, só não o fiz porque eles estavam muito limpinhos.  Uma outra não queria que o filho pisasse na lama..... aff, esse tipo de frescura cansa muito a minha beleza. Por último, por que levar criança de calça comprida jeans, sapato fechado, galocha e casaco para um lugar desses?  Sim, porque tinha criança de galocha de chuva.  Será que eu é que não sou muito normal?

Fim da pausa e de volta aos porcos...

Davi queria entrar no chiqueiro, mas, claro, não podia, e eu tenho sempre um pé atrás com porcos, porque às vezes eles são meio temperamentais, principalmente com as crias por perto (como qualquer mãe, né!).

 






Achei a ideia da Fazendinha muito bacana, um espaço rural em plena cidade grande - apesar de ser longe, num lugar bem rural também, mas esperava bem mais do que vi.  Bem que poderiam incrementá-lo mais, pois havia alguns espaços mal conservados e que poderiam ser um bom atrativo para os visitantes.

O preço dos comes e bebes também é bem salgado, quase abusivo, mas como sou meio prevenida, levei um farnel bem recheado de biscoitos, sucos e sanduíches, porque eu prefiro pecar pelo excesso a ter que sofrer com a falta.

Não demoramos muito, porque quando o sono do meio dia chega, Davi fica insuportável e aí começa a choramingar e fica muito enjoado.



 
Corra, Galinha, corra!


Eu acho que Davi curtiu bastante, até mesmo para ter contato direto com a natureza e com bichos que não fossem só cachorros ou gatos.  Mas eu acho que ele queria levar uma galinha para casa, sabe.

Eu Só Quero é Ser Feliz... Parte 2

Meu "up-grade" residencial se deu ao contrário do de muita gente: para morar melhor, tive que sair da zona sul e ir para a zona oeste.  Claro que se houvesse a oportunidade de ficar naquela área nobre, mas morando como moro hoje, eu ficaria, mas se é para ser feliz, então às vezes a gente tem que adaptar nossos planos à realidade.  Pelo menos eu penso assim, porque eu não sou do tipo que coloca a mão onde não alcança.  Se dá, ótimo.  Se não dá, paciência. Morar mal e até comer mal só para manter a pose não é comigo.

Não tenho do que reclamar, porque o bairro do Campinho é bem tranquilo e farto em comércio e transporte. É meio cansativo e chato de se chegar mas, no geral, é um lugar muito bom mesmo.  Porém, o que faltava nessa área e arredores era um espaço onde pudéssemos levar a família, as crianças.  Um lugar onde elas pudessem correr, brincar e se divertir.  Existem pracinhas? Sim, mas sabe como é, os brinquedos são quase todos quebrados e muitas ficam próximas a ruas de grande movimentação de carros, um perigo sempre constante.

Até que o prefeito "mauricinho-da-zona-sul" resolveu voltar seus olhos para as bandas de cá.  E aí surgiu o Parque Madureira



O Parque fica numa área enorme, que era ocupada por uma horta enorme, sem serventia enorme,  em baixo de torres de transmissão elétrica enormes.  É paralelo à linha do trem e ainda tem muito o que se fazer porque, apesar de já ter sido inaugurado, sabe como são as coisas, as obras ainda não estão concluídas e ainda faltam muitos acabamentos.  Mesmo assim, não poderiam ter construído espaço melhor para quem mora nessa área da cidade.

A área do Parque Madureira, durante a construção

Não vou descrever o parque mas no geral é rodeado de palmeiras, que ainda estão em fase de adaptação e por isso o sol bate com força e poder, o que significa que no verão, meu odiado verão, não receberá minha ilustre visita.  Entre tantos atrativos - uma pista enorme de skate, quadras de esporte, um espaço chamado Nave do Conhecimento, o ponto alto é a Praça do Samba, que promete mexer com as estruturas da região nos próximos carnavais, pois as escolas de samba Império Serrano e Portela ficam em Madureira e atraem um grande número de pessoas todos os fins de semana.



Se para os adultos a Praça do Samba poderá ser o maior atrativo do Parque, para as crianças esse lugar se chama Mirante.  O Mirante é uma plataforma ladeada por uma pequena escadaria.  A ideia, acho, era subir no Mirante para apreciar a vista do parque.  Só que esse Mirante tem um pequenino detalhe, que atrai as crianças assim como o mosquitinho é atraído pela lâmpada: aquilo jorra água! E com isso, surge o seguinte cálculo: criança + calor + mirante-que-jorra-água = criança se jogando na água, com roupa, de short, de sunga, de cuecas! E mães, que acabam ficando completamente molhadas, porque têm que acompanhar suas crianças ainda miúdas.


E foi exatamente isso que aconteceu na primeira vez que levei Davi.  E comigo.

Óbvio que eu não sabia que existia esse Mirante, muito menos iria imaginar que Davi, o enjoado, fosse se jogar de corpo inteiro naquela água, e olha que nem estava tão calor assim!  Não deu outra.  Foi o tempo suficiente para tirar as fraldas e deixá-lo só de cuecas. 




No domingo seguinte, repetimos o programa, só que dessa vez, além da tralha habitual que levo quando saio com ele, levei também uma toalha e a sunga de praia, porque sabia que seria inevitável que ele fosse para o Mirante-que-jorra-água e que atrai os mosquitinhos. E alguns mosquitões também.  Notei também eu não fui a única adulta a estar totalmente molhada, e aí eu não sei se os outros adultos que estavam molhados foram os que somente  acompanharam seus filhos pequenos ou também aproveitaram para cair na água.

O Fandangos NÃO patrocina esse passeio!
Acho que como o calor estava aumentando e o sol estaba bem forte, Davi ficou menos tempo do que eu esperava.  E aí, ao voltarmos para casa, fomos caminhando e eu fui mostrando a ele os canteiros e outras coisas que existem por lá.



Não pise na grama? Bah...


Quem me persegue?

Seria um day-after da Praça do Samba?



Quem mora nessa região nunca poderia imaginar que o prefeito "mauricinho-da-zona-sul" pudesse se lembrar dessa área e fazer uma obra tão legal que, espero, seja mantida não só para as Olimpíadas e Copa do Mundo, mas para toda a comundiade.

Me lembro que, ao passar por uma menina de uns 4 anos, toda molhada, ouvi a seguinte frase: "esse foi o dia mais legal da minha vida".  Espero também que as pessoas tenham consciência de que só preservando o local e respeitando as regras é que todos poderão usufruir esse espaço, porque não adianta o parque se encher de latas de lixo e guardas municipais se cada um não fizer a sua parte.

Espero também que o Mirante-que-jorra-água não se transforme, com todo o respeito, no mais novo Piscinão de Ramos, e que as pessoas não resolvam levar caixas de isopor e cadeiras de praia, porque o objetivo não é esse, porque infelizmente tem sempre alguns que gostam de bagunçar o lugar onde moram e depois reclamam da fama de suburbanos farofeiros.

Não acredito que os moradores da zona sul irão visitar o Parque Madureira, talvez por uma questão de bairrismo, ou porque já têm atrativos suficientes e, né, fazer o que lá no subúrbio fora da época do carnaval?

Eu frequento todos os lugares, até porque já morei na maioria deles mas, ó, com todo o respeito novamente, Praia de Ramos? Manempensar!  O que eu quero é ser feliz, mas tudo tem limites e eu também tenho minhas frescuras!